Grandes Exportadores de carne e laticínios podem ocultar 1,5 mil milhões de toneladas de emissões

Outubro 29, 2026

Amesterdão, Países Baixos – Uma metodologia alternativa de contabilização das emissões de gases com efeito de estufa, fortemente defendida por grupos de pressão do setor agroindustrial, permitiria aos principais países exportadores de carne e laticínios ocultar o impacto da sua produção pecuária no aquecimento global, sobrestimando de forma significativa as reduções das emissões de metano. É o que revela uma nova investigação encomendada pela Greenpeace Internacional.

Sophie Nodzenski, responsável de campanha da Greenpeace Internacional, afirmou: “As reduções rápidas das emissões de metano representam a nossa melhor oportunidade de limitar ao mínimo a ultrapassagem temporária dos limites de aquecimento global, enquanto descarbonizamos a economia mundial. No entanto, numa altura em que esta ultrapassagem dos limites de temperatura assume um lugar central na COP31, o lóbi da pecuária industrial está a promover um perigoso artifício contabilístico para fugir à sua quota-parte de responsabilidade. Alterar as métricas para esconder as emissões reais não é ação climática. É transferir os custos de uma poluição massiva para aqueles que menos responsabilidade têm por ela.”

O relatório analisa o GWP*, uma métrica controversa que acompanha se as emissões de metano estão a aumentar ou a diminuir, em vez de contabilizar as alterações nas emissões totais. Esta metodologia parte do pressuposto de que emissões constantes de metano não provocam aquecimento adicional, uma vez que este gás se decompõe rapidamente, apesar de reter 80 vezes mais calor do que o dióxido de carbono a curto prazo e de ser responsável por aproximadamente 0,5 °C do aquecimento global.

De acordo com a modelação realizada pelo centro de estudos Cerulogy, o GWP* permite aos países apresentar reduções insignificantes das emissões como conquistas climáticas significativas. Uma redução de apenas 0,6% nas emissões reais de metano dos dez maiores exportadores mundiais de carne e laticínios, entre 2020 e 2030, poderia ser apresentada como uma redução de 30% ao abrigo da métrica GWP*.

Uma redução de 30% das emissões reais permitiria a estes países, caso adotassem a métrica GWP*, afirmar que as suas emissões estão, na realidade, a arrefecer o planeta, contabilizando 898 milhões de toneladas de “emissões negativas”, sem que tivesse ocorrido qualquer alteração real. Segundo a métrica convencional, em 2030 a atividade pecuária continuaria a libertar 640 milhões de toneladas de metano para a atmosfera, contribuindo significativamente para o aquecimento global.[1]

Este artifício contabilístico faz desaparecer, no papel, gases que, na realidade, continuam a aquecer o planeta, criando uma diferença de 1 538 milhões de toneladas entre os valores comunicados através do GWP* e a realidade atmosférica, num único ano.

A investigação evidencia a dimensão extrema destas reduções artificiais, meramente contabilísticas. Os 1 538 milhões de toneladas representam:

Mais do que o total das emissões nacionais de gases com efeito de estufa da Indonésia em 2024.

86% das emissões totais da aviação mundial registadas em 2023.

Cerca de 6,4 vezes a pegada anual de gases com efeito de estufa da JBS, o maior produtor de carne do mundo, em 2023.

O equivalente a três vezes as emissões dos automóveis de passageiros que circulam anualmente nas estradas europeias (780 milhões de veículos).

Se alguns países decidirem unilateralmente comunicar as suas emissões de metano utilizando o GWP*, no âmbito de um acordo climático global concebido com base em reduções absolutas, estarão, na prática, a eliminar enormes quantidades de emissões dos balanços globais, consumindo de forma dissimulada o orçamento de carbono que ainda resta para limitar o aquecimento global a 1,5 °C.

Ao longo do período de 2020 a 2030, a utilização sistemática do GWP* por estes dez países criaria uma diferença acumulada de emissões ocultadas equivalente a quase um quinto do total das emissões anuais atuais de gases com efeito de estufa a nível mundial.

O relatório destaca ainda o risco de os governos utilizarem estas reduções meramente contabilísticas no setor agrícola para justificar uma descarbonização mais lenta dos setores altamente poluentes ligados aos combustíveis fósseis.

A Austrália, por exemplo, poderia utilizar o GWP* para declarar 76 milhões de toneladas de emissões negativas, justificando assim a continuação da poluição do seu setor do carvão, num volume equivalente às emissões de 20 centrais elétricas a carvão em funcionamento durante um ano. Entretanto, os Estados Unidos poderiam ocultar emissões equivalentes às de 86 milhões de automóveis de passageiros.

A Greenpeace Internacional alerta que o GWP* representa uma ameaça aos objetivos climáticos globais e apela aos governos para que rejeitem a utilização desta métrica na definição das metas nacionais e na comunicação das emissões, estabeleçam metas vinculativas de redução das emissões agrícolas alinhadas com o limite de 1,5 °C e apoiem uma transição justa para uma agricultura ecológica.

Notas para OCS:

Documentos:

Relatório: The Methane Scam Briefing (Relatório sobre a manipulação da contabilização do metano).

Resumo: The Methane Scam Summary (Resumo do relatório).

Referência:

[1] Secretariado da CCAC (8 de abril de 2022). New IPCC report bolsters evidence that methane reductions are key to preventing climate catastrophe. Climate & Clean Air Coalition.

Contactos para OCS:

Joe Evans, responsável global de comunicação da Greenpeace Reino Unido

Telefone: +44 7890 595387

Email: joe.evans@greenpeace.org

Gabinete de Imprensa da Greenpeace Internacional (disponível 24 horas)

Telefone: +31 (0)20 718 2470

Email: pressdesk.int@greenpeace.org


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