Greenpeace alerta: ao ritmo atual, a meta de proteger 30% só será atingida daqui a 265 anos
Novo relatório propõe uma rede de santuários marinhos no Atlântico para proteger espécies ameaçadas e inverter esta tendência.
Lisboa, 19 de outubro de 2026 – Um novo relatório da Greenpeace mostra que uma rede interligada de santuários marinhos no alto-mar do Atlântico poderia proteger rotas migratórias essenciais para as tartarugas-de-couro e abranger mais de 35% das zonas de risco associadas à pesca industrial.[1]
O relatório é divulgado no dia em que começa, na Arménia, a 17.ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre a Diversidade Biológica (COP17), durante a qual será feita a primeira avaliação oficial dos progressos alcançados relativamente às metas globais acordadas. Entre estas está o compromisso de proteger 30% dos oceanos até 2030, considerado pelos cientistas o mínimo necessário para dar aos ecossistemas marinhos uma oportunidade de recuperação.
Os governos têm de agir urgentemente para reduzir a distância entre os compromissos assumidos e as medidas efetivamente implementadas. O novo relatório da Greenpeace revela que, ao ritmo atual, serão necessários 265 anos para garantir a proteção integral de 30% dos oceanos.
“Este relatório demonstra que sabemos quais são as áreas do oceano que precisam de proteção urgente e que existem soluções concretas para as proteger. O que falta é vontade política para transformar os compromissos internacionais em ações concretas”, defende Toni Melajoki Roseiro. “O Mar dos Sargaços, uma das regiões identificadas, é um exemplo claro do que está em causa. Trata-se de um ecossistema fundamental para a biodiversidade do Atlântico, cuja proteção a Greenpeace Portugal tem vindo a defender. O nosso país tem a oportunidade e a responsabilidade de assumir um papel de liderança neste processo. É tempo de o Governo passar das palavras à ação e trabalhar para que o Mar dos Sargaços seja um dos primeiros santuários marinhos criados ao abrigo do Tratado Global dos Oceanos”, conclui o diretor da Greenpeace Portugal.
Ana Farias Fonseca, Coordenadora de Campanhas e Mobilização do Greenpeace Portugal acrescenta: “A COP17 representa uma oportunidade crítica que os governos têm de aproveitar para acelerar a tomada de decisões e recuperar o tempo perdido. Não podemos aceitar um ritmo político que adiaria por séculos a proteção do oceano, do qual toda a vida na Terra depende. É por isso que apelamos à participação de todas as pessoas na nossa petição, exigindo que o Governo português assuma uma liderança firme na criação de santuários marinhos no alto-mar, em particular no Mar dos Sargaços, junto aos Açores. A força do envolvimento e ação de todas as pessoas é indispensável para pressionar os decisores a agir com a urgência que a situação exige.”
Lukas Meus, responsável pela campanha dos oceanos da Greenpeace Internacional, afirma: “Este relatório revela a lentidão dos progressos feitos pelos governos na proteção dos oceanos. A criação de redes de santuários marinhos em alto-mar ajudaria os países a cumprir as metas globais de proteção dos oceanos e a compensar a falta de avanços até agora. Se não agirem, corremos o risco de chegar a um ponto em que já não haverá animais para proteger.
Uma rede interligada de santuários marinhos totalmente protegidos permitiria que espécies migratórias extraordinárias, como as baleias e as tartarugas, estivessem protegidas ao longo das suas deslocações, sem a ameaça de morrerem devido à pesca industrial ou de serem atingidas por navios de carga. Só assim poderão deslocar-se, alimentar-se e reproduzir-se em segurança.
Os representantes dos governos reunidos na Arménia têm de chegar a acordo sobre soluções ambiciosas que permitam recuperar o tempo perdido. A rede de santuários que propomos é precisamente o tipo de solução que os governos têm de implementar urgentemente se quiserem ter alguma possibilidade de cumprir as metas de proteção da biodiversidade.”
O relatório demonstra a importância de criar santuários marinhos totalmente protegidos, onde a pesca industrial seria proibida e o tráfego marítimo reduzido. Muitas das atuais áreas marinhas protegidas continuam a permitir práticas de pesca industrial destrutivas, comprometendo a sua eficácia na conservação da biodiversidade.
As tartarugas-de-couro estão entre os vertebrados marinhos mais ameaçados do planeta e encontram-se classificadas como vulneráveis na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN).[2] Atualmente, não existem áreas totalmente protegidas ou com um elevado nível de proteção no alto-mar do Atlântico, deixando esta espécie exposta à ameaça da pesca industrial.
O novo relatório da Greenpeace Internacional revela que, em 2025, os navios de pesca industrial passaram cerca de 1,6 milhões de horas a pescar no alto-mar do Atlântico, o equivalente a mais de 180 anos de atividade piscatória ininterrupta.
Atualmente, apenas 3,5% dos oceanos do planeta estão totalmente protegidos ou beneficiam de um elevado nível de proteção contra atividades humanas destrutivas.[3]
A rede proposta no novo relatório, intitulado Well Connected, abrangeria mais de 31% do alto-mar do Atlântico, ligando várias zonas de especial importância para a biodiversidade em águas internacionais. Permitiria ainda proteger quase 45% das zonas de risco de colisão entre navios e baleias-de-bossa, reduzindo significativamente esta ameaça.
No relatório, a Greenpeace Internacional identifica 17 locais que devem ser transformados em santuários marinhos totalmente protegidos ao abrigo do Tratado Global dos Oceanos. Esta medida permitiria aumentar significativamente a área sob proteção e abranger regiões onde as espécies migratórias enfrentam maiores ameaças.
Entre os locais identificados encontram-se áreas marinhas protegidas já existentes, cujo nível de proteção teria de ser reforçado, bem como novas zonas que estão a ser estudadas pelos governos. Em conjunto, formariam uma rede de santuários marinhos protegidos que abrangeria mais de 31% do alto-mar do Atlântico.
Notas para os jornalistas:
[1] Relatório Well Connected, Greenpeace Internacional
[2] Classificação da tartaruga-de-couro na Lista Vermelha da UICN
[3] Marine Conservation Institute – MPA Atlas
Contactos para entrevistas e mais esclarecimentos:
Catarina Canelas, Coordenadora de Comunicação da Greenpeace Portugal ccanelas@greenpeace.org / 913 913 323
Ana Farias Fonseca, Coordenadora de Campanhas e Mobilização da Greenpeace Portugal ana.farias@greenpeace.org / 913 913 343
Informação adicional sobre o relatório:
- O relatório cruza as rotas migratórias das tartarugas-de-couro e das baleias-de-bossa no Atlântico com as zonas de maior risco de captura acidental e de colisão com navios, respetivamente, permitindo identificar as principais áreas de perigo para estas espécies.
- São identificados 17 locais para a criação de santuários marinhos. Um deles abrange todas as áreas atualmente protegidas no alto-mar do Atlântico, que necessitam de passar a beneficiar de proteção integral. Cinco zonas – Mar dos Sargaços, Convergência Canárias-Guiné, Banana Hole, Elevação de Walvis e Zona de Fratura Equatorial do Atlântico – já estão a ser estudadas para proteção por governos, cientistas e organizações não governamentais. Dos restantes 11 locais identificados, oito já estão classificados como Áreas Marinhas Ecológica ou Biologicamente Significativas (EBSA).
- O relatório utiliza o termo «santuário marinho» em conformidade com os padrões de proteção integral ou elevada definidos pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), recomendando a proibição da pesca industrial nestas áreas.
- A criação de grandes redes de santuários marinhos permitirá proteger zonas essenciais de alimentação e reprodução, não apenas para baleias e tartarugas, mas também para mais de 800 outras espécies migratórias. A sobrevivência destas espécies depende de corredores migratórios seguros ao longo de todo o seu percurso, e não apenas de pequenas áreas protegidas isoladas.
- Apenas 3,5% dos oceanos estão atualmente totalmente protegidos ou beneficiam de um elevado nível de proteção. Faltam, por isso, 26,5 pontos percentuais para atingir a meta dos 30%. Nos 34 anos decorridos desde a Cimeira da Terra do Rio de Janeiro, em 1992, quando os países acordaram pela primeira vez estabelecer redes de áreas marinhas protegidas para salvaguardar a biodiversidade marinha, a cobertura global de áreas totalmente protegidas ou com elevado nível de proteção aumentou, em média, apenas 0,1 ponto percentual por ano. A este ritmo, a comunidade internacional demoraria cerca de 265 anos a atingir os 30% de proteção dos oceanos.