Greenpeace defende o abandono dos combustíveis fósseis como o melhor escudo face às guerras e às alterações climáticas
Dia Mundial do Clima
Lisboa, 25 de Março de 2026
- As grandes petrolíferas e empresas de gás, que operam fora do Golfo, são as grandes vencedoras da guerra no Irão. Só nas duas primeiras semanas de conflito, o valor de mercado das seis maiores empresas fósseis ocidentais ultrapassou os 112,3 mil milhões de euros.
- A Greenpeace Portugal exige liderança ao Governo português na Conferência de Santa Marta, que se realizará de 24 a 29 de abril, na Colômbia. Será uma oportunidade histórica para marcar um roteiro claro para o abandono dos combustíveis fósseis.
- A nossa organização reclama também um sistema energético suficiente, eficiente e 100% renovável; transporte público seguro, acessível e sustentável; a descarbonização e o isolamento térmico das habitações; um modelo agroalimentar sustentável, assim como a aprovação do Tratado Mundial dos Plásticos.
Por ocasião do próximo Dia Mundial do Clima (26 de março), e perante o agravamento da crise internacional provocado pela guerra no Irão, a Greenpeace exige ao Governo português um plano para abandonar definitivamente os combustíveis fósseis e apostar numa transição assente na suficiência, na eficiência e nas energias renováveis, como melhor garantia para uma vida mais justa, acessível e em paz.
O Diretor da Greenpeace Portugal afirma que “num contexto internacional cada vez mais instável e perigoso, Portugal não pode continuar vulnerável a um modelo energético ainda assente em combustíveis fósseis, que alimenta conflitos, aprofunda a crise climática e expõe as pessoas a sucessivos choques no custo de vida. A dependência do petróleo e do gás não é apenas um problema ambiental: é também um problema de segurança, de justiça social e de soberania nacional.
Sempre que há uma escalada internacional, são as famílias, os trabalhadores e os territórios que acabam por pagar a fatura, enquanto a indústria fóssil continua a lucrar.” Para Toni Melajoki Roseiro, “o Governo português tem, por isso, a responsabilidade de acelerar uma transição energética justa, assente em energias renováveis, eficiência, transportes públicos acessíveis, habitação mais eficiente e políticas que protejam realmente as pessoas. Na Conferência de Santa Marta, Portugal deve assumir uma posição clara e ambiciosa, defendendo medidas concretas para sair da dependência dos combustíveis fósseis e avançar, assim, para um modelo mais seguro, mais limpo e mais justo.”
E reforça que: “não é possível continuar a adiar decisões políticas que são essenciais para proteger o clima, reduzir a vulnerabilidade do país e garantir maior estabilidade, segurança e justiça para quem vive em Portugal.”
A dependência dos combustíveis fósseis alimenta guerras e perpetua práticas colonialistas e violentas. Da mesma forma, estas energias sujas prejudicam os territórios de onde são extraídas, empobrecem a população e geram desigualdade. As alterações climáticas também estão ligadas à indústria fóssil, que, com as suas emissões de CO2, agravam e aumentam a frequência de fenómenos extremos como incêndios, inundações, secas e ondas de calor. Por sua vez, a economia também não escapa ao impacto destes combustíveis, que aumentam a vulnerabilidade dos países face à subida de preços no mercado internacional e às decisões políticas das grandes potências produtoras, como os Estados Unidos ou a Rússia.
A Greenpeace recorda que guerras, como a do Irão, têm claros vencedores e vencidos. As grandes petrolíferas e empresas do gás de fora do Golfo Pérsico, surgem como as principais beneficiárias. Só nas primeiras duas semanas de ataques, o valor de mercado das seis maiores empresas fósseis ocidentais aumentou em mais de 112,3 mil milhões de euros. Não é um caso isolado: a indústria tem um longo historial de especulação bélica, como demonstra o benefício extraordinário de 115,8 mil milhões de euros, obtido pelas cinco grandes empresas do setor após o início da guerra na Ucrânia em 2022, segundo a Global Witness. Além disso, esta crise energética reforça os cofres de potências como a Rússia, que melhora a sua capacidade para financiar o conflito ucraniano, graças ao aumento das suas receitas com hidrocarbonetos.
Enquanto estas empresas lucram, a população civil paga o preço mais alto. A tragédia humana conta-se já aos milhares: mais de 1.400 vítimas no Irão e 600 no Líbano, a que se soma a destruição e contaminação sistemática de territórios. O ambiente sofre danos irreparáveis devido a incêndios, acumulação de escombros e degradação dos solos e aquíferos. Finalmente, as repercussões da guerra atingem a economia doméstica, através do preço do combustível, encarecendo desde os transportes até à alimentação. Segundo o FMI, por cada aumento sustentado de 10% no preço do petróleo, a inflação sobe 0,4%, asfixiando assim o bem-estar das famílias.
No final do próximo mês, os governos têm na Colômbia uma oportunidade histórica para acordar uma resposta coordenada face à dependência fóssil e às alterações climáticas. De 24 a 29 de abril, terá lugar a Primeira Conferência Internacional para a Transição para Além dos Combustíveis Fósseis. Um encontro de alto nível organizado pelo país sul-americano e pelos Países Baixos, para marcar um roteiro claro rumo à descarbonização.
A Greenpeace Portugal reclama ao Governo português seis medidas fundamentais contra as guerras e as alterações climáticas:
- Plano de abandono dos combustíveis fósseis: com medidas como deixar de os subsidiar, oferecer soluções para as pessoas com empregos nos setores afetados ou criar novos impostos para a indústria fóssil, assim como definir uma data para eliminar progressivamente o uso de gás fóssil.
- Sistema energético suficiente, eficiente e 100% renovável o mais tardar até 2040, que permita viver melhor sem depender de combustíveis fósseis e evitar cenários de racionamento de energia, que representariam um retrocesso brutal.
- Transição urgente para um sistema agroalimentar sustentável, assente na agricultura biológica e na pecuária extensiva em modo biológico. A crise do Estreito de Ormuz evidencia a vulnerabilidade de um modelo industrial dependente dos combustíveis fósseis e dos agroquímicos, face à resiliência que um sistema sustentável oferece.
- Transporte público seguro, acessível e sustentável, que permita reduzir a dependência da gasolina e do gasóleo, assegurando ao mesmo tempo uma mobilidade acessível.
- Descarbonização e isolamento térmico das habitações, para garantir casas de qualidade, eficientes, eletrificadas e com autoconsumo de energia solar.
- Aprovação do Tratado Mundial dos Plásticos, promovendo materiais mais sustentáveis, reduzindo a dependência de matérias-primas fósseis e travando a expansão da produção de plásticos.