Novo relatório da Greenpeace sobre tarifas de avião versus comboio
Voar barato sai caro: as companhias aéreas competem de forma desleal com o comboio e agravam a crise climática
21-08-2025
• A análise revela um modelo europeu de mobilidade ineficiente, que favorece o meio de transporte mais poluente: os voos emitem, em média, cinco vezes mais CO₂ por passageiro-quilómetro do que os comboios.
• Espanha é o segundo país da Europa com as ligações ferroviárias mais caras em comparação com o avião, segundo revela um novo relatório da Greenpeace.
• Uma viagem de comboio entre Barcelona e Londres pode custar 389 euros, face aos 14,99 euros em voo low-cost: 26 vezes mais caro.
Viajar de avião continua a ser mais barato do que de comboio na maioria das rotas transfronteiriças europeias, apesar de o avião ser o meio de transporte com maior impacto climático. É o que revela o relatório “Voar barato sai caro: como as companhias aéreas competem de forma desleal com o comboio e agravam a crise climática”, publicado hoje pela Greenpeace, que coloca Espanha como o segundo pior país da Europa, apenas ultrapassado por França: 92% de todas as rotas transfronteiriças analisadas (12 em 13) são mais caras de comboio do que de avião.
Num contexto em que os impactos climáticos, como incêndios florestais, secas e ondas de calor, estão a atingir níveis insuportáveis, a Greenpeace realizou um estudo comparativo sobre as opções de mobilidade dos cidadãos europeus, tendo em conta o preço e as emissões. O estudo, que analisou 142 rotas em 31 países, revela que voar é predominantemente mais barato do que viajar de comboio em 54% das 109 rotas transfronteiriças avaliadas.
“Apesar de ser o meio de transporte mais poluente, voar tem sempre vantagem: graças a privilégios fiscais, as companhias aéreas competem de forma desleal com o comboio, porque o preço do bilhete não inclui todos os custos e o comboio sim. O que não pagam os que voam estamos todos a pagar com os nossos impostos. Mas o custo de voar é muito maior: reflete-se nos incêndios, nas ondas de calor e nas secas que estamos a sofrer”, declarou José Luis García Ortega, responsável pela área de Clima, Energia e Mobilidade da Greenpeace Espanha.
Um sistema fiscal que favorece os voos baratos à custa do clima
As companhias aéreas low-cost, como Ryanair, Wizz Air, Vueling e easyJet, dominam os céus europeus, com tarifas que muitas vezes começam abaixo das próprias taxas aeroportuárias e das que incidem sobre os bilhetes. Estes preços artificialmente baixos são possíveis porque os combustíveis de aviação não pagam impostos e porque os bilhetes internacionais estão isentos de IVA.
Entretanto, os operadores ferroviários pagam IVA na totalidade em muitos países, e o preço do bilhete inclui os custos energéticos e as portagens de acesso às vias.
• O custo ambiental é enorme: os voos emitem, em média, cinco vezes mais CO₂ por passageiro-quilómetro do que os comboios e, comparados com os comboios elétricos que utilizam eletricidade 100% renovável, o seu impacto pode ser mais de 80 vezes superior.
• Ainda assim, as tarifas aéreas artificialmente baixas continuam a incentivar milhões de pessoas a voar.
A Greenpeace descobriu que em 54% das rotas transfronteiriças voar é mais barato em pelo menos 6 dos 9 dias analisados. A organização comparou tarifas em nove datas diferentes, em períodos distintos de reserva. Os comboios só foram sempre ou quase sempre mais baratos em 29 rotas (39%), sobretudo na Europa Central e Oriental, com destaque para os países bálticos e Polónia.
• Em França, Espanha e Reino Unido, os comboios são mais caros do que os voos em até 95% das rotas transfronteiriças.
• As viagens de comboio podem custar até 26 vezes mais do que os voos — como demonstra o exemplo mais extremo encontrado: de Barcelona a Londres é possível voar por apenas 14,99 euros, contra os 389 euros de uma viagem de comboio.
A Greenpeace exige medidas para tornar o comboio mais acessível
A Greenpeace apela à União Europeia e aos governos nacionais para que reformem as políticas de transportes:
• Eliminando os subsídios à aviação.
• Introduzindo um sistema unificado de bilhetes de comboio.
• Investindo mais em infraestruturas ferroviárias públicas.
A organização defende também a introdução de “bilhetes climáticos”: sistemas de assinatura única com tarifa plana válidos em todo o transporte público, a nível nacional e internacional.
Pequenos avanços, mas ainda insuficientes
Este é o segundo relatório da Greenpeace sobre tarifas aéreas e ferroviárias na Europa. Desde 2023, a proporção de rotas onde viajar de comboio é predominantemente mais caro aumentou 14%, graças a melhores ligações ferroviárias e à redução de voos ultrabaratos através de hubs como Londres ou Dublin.
Os comboios noturnos, que oferecem uma alternativa sustentável para viagens de longa distância, tendem a ser mais acessíveis do que os comboios de alta velocidade, mas ainda não conseguem competir com os voos, que continuam fortemente subsidiados.
INFORMAÇÃO ADICIONAL
Relatório completo AQUI
Sobre a análise
O relatório de 2025 compara as tarifas de bilhetes em 142 rotas, incluindo 109 viagens transfronteiriças e 33 nacionais, analisando os preços em nove datas diferentes de viagem, em três períodos de tempo (curto, médio e longo prazo).
O estudo abrange quase todos os países europeus e inclui apenas rotas de menos de 1500 km de distância aérea, que podem ser percorridas de forma razoável tanto de comboio como de avião.