O OLIVAL PORTUGUÊS TRANSFORMADO EM ATIVO FINANCEIRO: Relatório revela como fundos estrangeiros captam milhões em subsídios para industrializar o Alentejo
Lisboa, 26 de fevereiro – Um relatório de investigação internacional hoje divulgado pela Greenpeace, intitulado “O Campo como Ativo”, expõe a face oculta da expansão do olival superintensivo em Portugal. O documento revela que o país se tornou o “porto seguro” para fundos de investimento canadianos e britânicos, que utilizam o Alqueva e milhões de euros em fundos públicos portugueses para substituir a agricultura tradicional por um modelo industrial de lucro rápido e elevado risco ambiental.
DESTAQUES DO RELATÓRIO PARA PORTUGAL:
- Portugal como “Laboratório” do Capital: Ao contrário de Espanha, onde o olival tradicional ainda resiste, a expansão em Portugal (liderada por empresas como a Innoliva) foca-se quase exclusivamente no modelo superintensivo. Dos 4.800 hectares geridas pelo grupo na última década, mais de 65% (3.168 hectares) estão em solo português.
- O Escândalo dos Subsídios: O relatório detalha como o Estado Português, através do IFAP, financiou diretamente esta transição. Um único projeto de um fundo estrangeiro recebeu 6,5 milhões de euros a fundo perdido, a que se somaram mais 3 milhões para lagares industriais de alta capacidade (como o de Carapetal).
- A “Mecanização da Morte”: A investigação confirma o impacto devastador na biodiversidade. As colheitas noturnas com máquinas cabalgadoras, fundamentais para a rentabilidade destes fundos, provocam a mortalidade em massa de aves, o que forçou as autoridades a suspender a prática, embora o modelo económico destes grupos continue a depender da mecanização extrema.
- Água: O Novo Ouro: O relatório alerta que o modelo superintensivo, embora eficiente “por árvore”, consome volumes totais de água por hectare muito superiores ao tradicional, colocando em causa a resiliência hídrica do Alentejo em períodos de seca extrema.
Para o Diretor da Greenpeace Portugal, “Estamos a trocar pessoas por máquinas e comunidades por folhas de Excel. O Governo gasta milhões em subsídios para um modelo que não fixa um único jovem no Alentejo. O que vemos hoje é uma forma de extrativismo moderno: os fundos de investimento a sugar a nossa água e o nosso solo, pagos com os nossos impostos, deixando para trás um território vazio, biologicamente devastador e socialmente abandonado. O Alqueva não pode ser o cemitério das nossas aldeias.”
Toni Melajoki Roseiro acrescenta que “não é agricultura, é extração de valor. Transformaram a nossa oliveira numa franquia industrial onde tudo é uniformizado e mecanizado, controlado à distância a partir de um escritório em Toronto ou Londres. O resultado é um Alentejo mais frágil; ´água sob pressão, território a esvaziar-se e o azeite português tratado como um ativo financeiro, em vez de ser parte da nossa terra.”
Perante este cenário, a Greenpeace Portugal exige uma moratória imediata à expansão do olival superintensivo. O governo português tem de escolher: ou continua a ser o facilitador dos fundos de investimento, ou assume o seu papel de protetor do território e da soberania alimentar de Portugal. O campo não é um banco. O campo é a nossa vida.
NOTAS PARA A REDAÇÃO:
- Investimento: Portugal e Espanha captaram mais de 3.000 milhões de euros em investimentos em negociação para o “agribusiness” até meados de 2025.
- Modelo de Negócio: O relatório explica a estratégia de buy and leaseback usada por fundos como a Fiera Comox e a ADM Capital para controlar a produção nacional.
- Impacto Ambiental: Os sistemas superintensivos utilizam densidades de até 2.000 árvores por hectare, exigindo um uso massivo de fitossanitários e fertilizantes químicos que contaminam os lençóis freáticos.
Relatório completo