Entrada de blog por Catarina Canelas - Março 13, 2026


A guerra já pesa no prato e no depósito dos portugueses

A escalada no Médio Oriente já está a pressionar os combustíveis e pode agravar ainda mais o custo de vida. Em Portugal, onde o cabaz alimentar já vinha a subir após as tempestades, esta nova crise expõe, mais uma vez, a fragilidade de um país ainda demasiado dependente do exterior.

Há guerras que não ficam apenas no mapa. Entram-nos pela bomba de combustível, pela conta da energia, pelo preço das compras da semana. E é nesses momentos que se percebe como a violência geopolítica não é apenas um assunto distante, feito de fronteiras. Alianças e diplomacia. É também uma força que pesa na vida concreta das pessoas e expõe a vulnerabilidade de um modelo ainda demasiado dependente de combustíveis fósseis, de rotas instáveis e de cadeias de abastecimento longas. 

Uma crise que chega cá

A tensão em torno do Estreito de Ormuz voltou a mostrar isso com nitidez. Esta passagem concentra uma fatia decisiva do comércio marítimo mundial de petróleo e transporta também volumes significativos de gás natural liquefeito e fertilizantes. Quando uma rota destas entra em sobressalto, não abanam apenas os mercados da energia. Abanam os transportes, os fretes, os seguros, os custos de produção e, pouco depois, o quotidiano de quem está a milhares de quilómetros dali.

Portugal continua particularmente exposto a esse efeito dominó. Em 2023, a dependência energética nacional situou-se nos 66,7%, segundo a Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG). Apesar dos avanços feitos, isso significa que o país continua demasiado vulnerável ao que acontece fora de portas, sempre que a instabilidade atinge combustíveis fósseis e matérias-primas estratégicas. 

Os sinais já estão à vista

Segundo a DECO PROteste, a escalada da guerra no Médio Oriente está a pressionar os preços dos combustíveis, da eletricidade e do gás em Portugal. Num país em que tantas pessoas dependem do carro para trabalhar, estudar ou simplesmente viver, isto não é uma oscilação abstrata. É um peso imediato no orçamento. 

Mas o impacto não se fica pelo depósito. A DECO indica que o cabaz alimentar chegou aos 254,12 euros, o valor mais alto desde que começou a ser monitorizado. E, ainda segundo dados da DECO, citados pela Antena1, esse aumento chegou aos 3 euros, numa só semana. 

Primeiro as tempestades

Aqui, porém, convém ser rigoroso. Essa subida recente do cabaz ainda não traduz plenamente os efeitos desta guerra. Os impactos das tempestades de janeiro e fevereiro podem ainda não estar integralmente refletidos nos preços ao consumidor. Ou seja, Portugal já vinha com o cabaz alimentar pressionado por fatores internos, ligados ao mau tempo e à destruição de culturas, antes de esta nova escalada internacional começar a fazer sentir todo o seu peso. Algo para que, aliás, a Greenpeace Portugal já tinha alertado no mês passado.

É precisamente aqui que as crises se cruzam. Primeiro vieram as tempestades. Agora soma-se a instabilidade geopolítica. E o resultado tende a recair sobre os mesmos de sempre: as famílias que abastecem o carro, fazem compras e tentam segurar um orçamento cada vez mais apertado. 

Um país demasiado exposto

Também aqui importa não fingir certezas. O momento é altamente volátil, segundo a Agência Internacional da Energia (IEA). Ninguém sabe com segurança como evoluirá esta crise nos próximos dias, mas uma coisa é clara: enquanto persistir a incerteza, continuarão a existir oscilações. E essas oscilações continuarão a pressionar famílias, empresas e setores inteiros da economia. 

Esta pressão sente-se de forma ainda mais dura, num país onde a dependência do automóvel continua a ser muito elevada. Dados da Eurostar, citados pela Lusa, mostram que 69% dos portugueses não utilizaram transportes públicos em 2024, colocando Portugal entre os países da União Europeia onde menos se recorre a estes meios. Quando os combustíveis sobem, essa vulnerabilidade torna-se ainda mais visível.

O que esta crise volta a mostrar não é apenas a brutalidade da guerra. Expõe também a fragilidade de um sistema que continua demasiado dependente do exterior para se mover, produzir e alimentar o país. É por isso que falar de transição energética e de um sistema alimentar mais resiliente não é desviar a conversa. É ir ao centro do problema. 

Reduzir a dependência dos combustíveis fósseis, reforçar a produção local, encurtar cadeias e apoiar uma agricultura menos vulnerável a choques externos é também defender o rendimento das famílias e a capacidade do país para resistir ao próximo abalo.

Porque o verdadeiro problema não é apenas esta guerra. É a facilidade com que crises como esta entram dentro de casa.

Catarina Canelas, Coordenadora de Comunicação da Greenpeace Portugal

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