Guerra no Irão e preços dos alimentos: como o grande agronegócio lucra com a crise
A agitação geopolítica no Estreito de Ormuz fez disparar os preços dos fertilizantes, expondo uma ligação direta entre a guerra no Irão e os preços dos alimentos. Mas, no meio da perda devastadora de vidas e da destruição já em curso, agricultores e famílias são também empurrados para outra preocupação: o custo da próxima colheita. Ao mesmo tempo, um tipo diferente de máquina começa a ganhar velocidade em Washington e em Bruxelas: a máquina de lobby. Este é o momento de romper com esse guião e aplicar soluções justas que alimentem as pessoas, e não os bolsos das grandes empresas.
A história mostra que, para o grande agronegócio, uma crise global é menos um desastre e mais uma oportunidade estratégica. Estamos prestes a assistir a uma verdadeira aula prática de como transformar os receios em torno da “segurança alimentar” em bem-estar corporativo e em desmantelamento das proteções ambientais.
Mas nós conhecemos bem esse guião.
1. O guião do grande agronegócio: usar a segurança alimentar como arma em tempo de guerra
É de esperar que a expressão “segurança alimentar” seja esvaziada e instrumentalizada. Os grandes operadores industriais já estão a posicionar-se como se fossem a única barreira entre o público e as prateleiras vazias. Na verdade, é este modelo de agricultura industrial, altamente concentrado e dependente de químicos, que tornou o nosso sistema alimentar global tão frágil desde o início.
A narrativa deles é calculada: o mundo está no caos, por isso o Governo tem de deixar de “sobrecarregar” o agronegócio com regulamentação. Vão tentar usar um choque temporário nas cadeias de abastecimento para desmontar de forma permanente normas ambientais conquistadas com muito esforço.

Trecker sprueht Guelle auf Acker in Norddeutschland
2. A exigência de desregulação
Os alvos imediatos são sempre as salvaguardas ambientais e comunitárias. Sob o pretexto de “libertar a produção”, é provável que os lóbis pressionem para:
- suspender regras para permitir a disseminação de estrume animal, sacrificando a segurança das águas subterrâneas e a saúde das comunidades;
- travar leis de redução de pesticidas com falsas alegações de que ameaçam a segurança alimentar, apesar de os cientistas provarem que a segurança a longo prazo é impossível sem solos saudáveis e polinizadores;
- impor atalhos legais para destruir milhões de hectares de terra antes reservados para abelhas, aves e recuperação dos solos.
Não é a primeira vez que vemos este guião. Durante o choque nas cadeias de abastecimento que se seguiuà invasão da Ucrânia pela Rússia, este mesmo tipo de lóbis aproveitou a instabilidade geopolítica para arrancar estas concessões à Comissão Europeia. A história repete-se, enquanto o lóbi europeu dos agricultores, a Copa-Cogeca, tenta aproveitar esta crise para exigir ainda mais recuos ambientais.

Também estamos a ver os lóbis surgir em força no Reino Unido e nos Estados Unidos, onde, numa carta ao Presidente Donald Trump, a American Farm Bureau Federation assumiu uma previsível posição de “emergência”, afirmando:
“A atual volatilidade exige uma suspensão imediata dos entraves regulamentares… Não podemos dar prioridade à burocracia administrativa em detrimento da capacidade dos agricultores americanos para alimentar um mundo em crise.”
O que esta declaração esconde é a forma como a agricultura passou de explorações familiares locais e resilientes para enormes operações industriais de “fábrica”, geridas por algumas das maiores corporações do mundo. O modelo da agricultura industrial é inerentemente frágil: basta que uma peça da engrenagem da cadeia de abastecimento global falhe para que toda a máquina entre em rutura.
3. A grande transferência de riqueza do público para o privado
Enquanto as grandes empresas exigem menos “interferência” do Estado sob a forma de regras, exigem ao mesmo tempo mais “interferência” sob a forma de dinheiro. O agronegócio é o exemplo perfeito de um sistema que socializa o risco e privatiza o lucro.
Quando os preços estão baixos, dominam o mercado; quando os preços dos fatores de produção disparam, exigem “pagamentos de transição” para manter à tona o seu modelo frágil.
Entretanto, somos todos nós que pagamos a factura. O custo de limpar água potável poluída, por exemplo, geralmente não é suportado pelo grande agronegócio. É pago pelas famílias comuns, através de impostos e tarifas.
O resultado previsível?
- Os contribuintes acabam por suportar a conta dos subsídios de emergência aos fertilizantes, resgatando, na prática, os super-ricos executivos do grande agronegócio.
- Os agricultores continuam presos num ciclo de dependência química, enchendo os bolsos de gigantes dos fertilizantes como a Nutrien e a The Mosaic Company. Durante a crise de 2022, estas duas empresas viram os seus lucros atingir máximos recorde, enquanto os agricultores lutavam para não ficar no prejuízo.
- As grandes empresas do agronegócio anunciam lucros extraordinários recorde, alimentados precisamente pela volatilidade que alegavam que as iria arruinar. Em 2022, a Cargill terá arrecadado um valor recorde de 165 mil milhões de dólares em receitas, uma subida de 23%, durante uma crise alimentar global.

Banana plantation at the Zé Maria do Tomé camp, in Chapada do Apodi (CE), municipality of Limoeiro do Norte.
A verdadeira segurança alimentar vem do agricultor local
Se queremos verdadeira independência, temos de deixar de sustentar uma agricultura industrial viciada em químicos. A agricultura local e ecológica é o único caminho real para a soberania alimentar. Ao trabalhar com a natureza para restaurar os nutrientes do solo de forma natural, os agricultores podem quebrar este ciclo de dependência.
Isto faz quatro coisas extraordinárias ao mesmo tempo:
- Poupa dinheiro: os agricultores reduzem drasticamente os seus custos, protegendo os preços dos alimentos.
- Limpa a nossa água: impede o escoamento de químicos tóxicos que poluem os nossos rios e a água para consumo.
- Protege a vida selvagem: devolve espaço a abelhas, aves e biodiversidade.
- Combate as alterações climáticas: corta as enormes emissões do sistema alimentar industrial.
A verdadeira segurança alimentar não se compra a uma fábrica de químicos noutro país. Não vem da troca de água potável limpa por mais produção poluente. E certamente não vem de entregar ainda mais dinheiro a quem já é rico.
Eis o que devia acontecer em vez disso
Curto prazo: parar de resgatar o intermediário corporativo. Se forem mobilizados fundos de emergência, devem ir diretamente para as pessoas comuns para compensar os custos dos alimentos, em vez de irem parar às contas bancárias de fornecedores químicos e acionistas milionários.
Longo prazo: financiar a transição, e não o statu quo. A segurança alimentar constrói-se de baixo para cima, com solos saudáveis e resiliência local.
Não podemos permitir que a ganância do lóbi do agronegócio use esta crise como pretexto para a desregulação. Está na altura de financiar um modelo que sirva as nossas comunidades e o nosso planeta, e não apenas os multimilionários no topo da cadeia alimentar.
Amanda Larsson, responsável global de campanhas para Alimentação e Agricultura na Greenpeace Aotearoa.
Nota: Editado em 20/03/2026 para incluir a referência à ligação direta entre a guerra no Irão e os preços dos alimentos.