O inverno mais húmido das nossas vidas: O que tem a ver a GALP com o comboio de tempestades?
- Embora os relatórios de atribuição ainda estejam por chegar, sabemos que fenómenos meteorológicos extremos como o comboio de tempestades que nos está a atingir desde janeiro, são cada vez mais frequentes e mais destrutivos. Seja pela possível debilitação da corrente de jato do Ártico, seja pela acumulação de humidade e energia na atmosfera devido ao aumento da temperatura do mar: as alterações climáticas já estão a provocar impactos com elevados custos humanos e económicos. E no nosso país, as alterações climáticas têm um patrocinador de destaque: a Galp e os seus combustíveis fósseis.
Este janeiro, choveu mais do dobro da média em Portugal (233 mm face a um valor médio de 105 mm no período 1991-2020), e as chuvas torrenciais continuam a fazer transbordar rios, infraestruturas, estradas e redes elétricas. Em suma, estão a ultrapassar a capacidade da sociedade para lhes dar resposta. Desta vez, a pior parte está fazer-se sentir no centro-sul do país, tal como em episódios anteriores aconteceu noutras zonas.
Mas o que tem a ver a Galp com os ventos e as chuvas que deixaram mais de 200 mil famílias sem eletricidade?
Por vezes, a ciência climática pode parecer tremendamente complexa. Mas, na essência, as coisas são simples: ao queimar carvão, petróleo e gás, aumentámos a camada de gases que retêm o calor na atmosfera. Isso significa que hoje a nossa atmosfera não é apenas mais quente mas é também mais húmida, porque o calor aumenta a evaporação e, consequentemente, a energia disponível.
Isto traduz-se em ondas de calor mais intensas, longas e frequentes; chuvas mais fortes; épocas de incêndios mais prolongadas e perigosas. Além disso, com mais energia para alimentar tempestades poderosas e com uma atmosfera mais quente capaz de reter mais humidade, a transição entre extremos tornou-se mais rápida e mais intensa.
E esta cadeia de tempestades é culpa das alterações climáticas?
Ainda é cedo para dizê-lo: não existem estudos que atribuam individualmente esta sequência de tempestades às alterações climáticas. No entanto, há provas científicas de que o aquecimento global está a favorecer a acumulação de fenómenos meteorológicos extremos, como os que temos vivido.
Além disso, há dois processos pelos quais as alterações climáticas parecem estar a contribuir para causar e agravar estas tempestades:
- O enfraquecimento da corrente de jato do Ártico, que terá bloqueado um anticiclone nas Ilhas Britânicas, empurrando as tempestades mais para sul do que é habitual. Os meteorologistas indicam que estas tempestades costumam atingir o Reino Unido, mas esse bloqueio está a fazê-las permanecer na Península Ibérica.
- O aquecimento dos oceanos (provocado pelo aquecimento global) aumenta a carga de humidade da atmosfera, tornando as chuvas e tempestades mais abundantes e intensas.
O passado já não é uma guia para o futuro
As mudanças nas condições que determinam o nosso clima, significam que os padrões do passado já não servem de referência para o presente. Estamos a assistir a fenómenos extremos em locais e momentos onde nunca antes tinham ocorrido, surpreendendo cada vez mais a população.
As tempestades são mais violentas, os incêndios florestais surgem fora da época habitual e numa escala de destruição inédita e, as alterações nos padrões de precipitação, estão a provocar estragos na produção alimentar.
A gestão do território, a adaptação climática e a preparação para emergências
A influência das alterações climáticas na intensificação de fenómenos meteorológicos extremos, expõe e agrava problemas de gestão do território que a Greenpeace denuncia há décadas: má gestão florestal, má gestão da água, ordenamento do território deficiente e falhas na aplicação da legislação ambiental.
A necessidade de enfrentar estes problemas é cada vez mais evidente. A ameaça climática só aumenta e exige uma ação real e ambiciosa para melhorar a nossa adaptação a estes fenómenos.
Para isso, é necessário reavaliar os riscos que enfrentamos, rever estudos anteriores e adaptar as infraestruturas ao aumento desses riscos. É também fundamental melhorar a preparação para emergências, de todos os tipos, em todo o território.
Deitar mais gasolina para a fogueira
Em poucas palavras, as alterações climáticas resultantes da queima de carvão, petróleo e gás estão a empurrar o mundo de catástrofe em catástrofe. Afetadas por uma sucessão de desastres, muitas populações não têm tempo para recuperar ou veem a sua resiliência ultrapassada pela magnitude dos impactos. O efeito na saúde mental está a tornar-se muito grave.
O primeiro dever dos governos é garantir a segurança da população. Mas, neste momento, muitos estão a fazer exatamente o contrário. Autocratas como Trump pretendem expandir perigosamente os combustíveis fósseis, até recorrendo ao uso da força. Cada nova expansão e investimento em fósseis aumenta os riscos futuros, em todo o mundo.
No contexto das grandes instalações industriais abrangidas pelo comércio europeu de emissões, a Galp surge como a empresa com maior contributo para as emissões em Portugal, com destaque para a refinaria de Sines, a mais poluente do país nesse regime.
Está na hora de uma eliminação justa e rápida dos combustíveis fósseis
A Greenpeace e, muitos outros ativistas climáticos em todo o mundo, exigem há anos o abandono rápido e justo do carvão, do petróleo e do gás.
Dentro de poucas semanas, Portugal juntar-se-á a dezenas de países que se reunirão no porto carbonífero de Santa Marta (Colômbia) para a Primeira Conferência Internacional sobre a Transição Justa para o Abandono dos Combustíveis Fósseis, uma iniciativa poderosa liderada pelos governos da Colômbia e dos Países Baixos.
Portugal apoiou, na última COP30, juntamente com outros 82 países, a negociação de um plano para abandonar os combustíveis fósseis. Se o Governo quer liderar a transição para um mundo melhor, sem combustíveis fósseis, mais verde, renovável, saudável, justo e com melhor qualidade de vida, tem a responsabilidade de liderar este processo. Agora, mais do que nunca.
A ciência é inequívoca: temos de abandonar os combustíveis fósseis com urgência, ao mesmo tempo que fazemos muito mais para ajudar a população a adaptar-se a esta nova era de mudanças climáticas abruptas.
Estas catástrofes, para lá da destruição de ecossistemas, edifícios e infraestruturas, trazem um sofrimento imenso a quem as vive. As famílias afetadas estão de coração apertado, depois de terem sido obrigadas a abandonar as suas casas e sem saber o que vão encontrar no regresso, com cortes no fornecimento de eletricidade durante dias.
E, enquanto isso, as empresas de combustíveis fósseis continuam a encaixar lucros obscenos todos os anos e a negociar com autocratas como Putin e Trump, para continuarem a espremer o planeta até à última gota de petróleo, indiferentes ao sofrimento das pessoas.
Pedro Zorrilla Miras – Responsável pela Campanha de Alterações Climáticas da Greenpeace Espanha