Reaquecer recipientes de plástico para comida: o que diz a ciência sobre microplásticos e químicos nas refeições prontas
Com que frequência comes comida de take-away? E refeições prontas pré-preparadas? Ou simplesmente sobras que aqueces no micro-ondas? Em qualquer um destes casos, há uma grande probabilidade de o recipiente ser de plástico. Sendo uma opção prática e acessível, haverá riscos associados que devemos conhecer? Foi isso que decidimos investigar.
A investigação científica mostra cada vez mais que aquecer alimentos em embalagens de plástico pode libertar microplásticos e químicos para a comida que consumimos. Uma nova revisão da Greenpeace Internacional, baseada em estudos científicos revistos por pares, conclui que aquecer recipientes de plástico no micro-ondas aumenta significativamente essa libertação, levantando preocupações sobre impactos na saúde humana a longo prazo. Este artigo resume o que a ciência já sabe, o que permanece incerto e o que precisa de mudar.
Há evidência crescente de que micro e nanoplásticos já se disseminaram pelo ambiente, desde montanhas cobertas de neve e gelo do Ártico até espécies na base da cadeia alimentar, como besouros, lesmas, caracóis e minhocas. O mesmo padrão começa a surgir nos seres humanos. Microplásticos já foram encontrados no sangue, na placenta, nos pulmões, no fígado e em vários outros órgãos.
A isto junta-se o facto de existirem cerca de 16.000 químicos conhecidos utilizados ou presentes em plásticos, com mais de um quarto já identificados como preocupantes. Quase 1.400 desses químicos já foram detetados em organismos humanos.
E não são apenas as embalagens alimentares. Muitos objetos do quotidiano também contêm plástico, tornando-se fontes adicionais de exposição. Se microplásticos e químicos estão em todo o lado, inclusive dentro de nós, como lá chegam? E devemos preocupar-nos com o facto de grande parte da nossa comida estar embalada em plástico?
Greenpeace analysis of 24 articles in peer-reviewed scientific journals found that the plastics we use to package our food are directly risking our health.
Heating food in plastic packaging dramatically increases the levels of microplastics and chemicals that leach into our food.
Embalagens alimentares de plástico: o bom, o mau e o feio
A tendência crescente de refeições prontas, compras online e entregas ao domicílio está a expandir-se em todo o mundo. Desde a introdução das primeiras refeições preparadas para micro-ondas, nos Estados Unidos, nos anos 50, o consumo global não parou de crescer. Hoje, este mercado vale cerca de 190 mil milhões de dólares e continua em expansão.
Um novo relatório da Greenpeace Internacional analisou artigos científicos revistos por pares para perceber exatamente o que a investigação diz sobre embalagens alimentares de plástico e plásticos em contacto com alimentos.
A conclusão é consistente. Quando os alimentos são embalados em plástico e depois aquecidos, aumenta significativamente a libertação de microplásticos e químicos que acabam por migrar para a comida.
E não são quantidades residuais. São níveis relevantes de exposição.
O que acontece quando aquecemos plástico
Num estudo, recipientes de poliestireno e polipropileno com água, depois de refrigerados ou congelados e aquecidos no micro-ondas, libertaram entre 100.000 e 260.000 partículas de microplástico. Outro estudo concluiu que apenas cinco minutos de micro-ondas podem libertar entre 326.000 e 534.000 partículas para os alimentos.
Para além das partículas, há também químicos. Entre diferentes tipos de plástico, estima-se a existência de cerca de 16.000 substâncias, das quais aproximadamente 4.200 são consideradas perigosas. Muitas outras nem sequer estão devidamente identificadas.
A investigação revelou ainda que 1.396 químicos provenientes de plásticos em contacto com alimentos já foram encontrados em humanos, vários deles conhecidos por serem prejudiciais. Ao mesmo tempo, existem muitos para os quais ainda não há investigação suficiente sobre impactos a longo prazo.
O que temos hoje é evidência clara de libertação de microplásticos e químicos para os alimentos durante o aquecimento e, em paralelo, muitas incertezas sobre as consequências para a saúde.

As incertezas conhecidas sobre os químicos do plástico e os microplásticos
O problema aqui, para além do facto de os químicos do plástico estarem rotineiramente a migrar para os nossos alimentos, é que muitas vezes não temos investigação clara nem informação sólida sobre os impactos a longo prazo destas substâncias na saúde humana. Isto aplica-se tanto aos químicos deliberadamente utilizados na produção de plástico, alguns dos quais são absolutamente tóxicos, como o antimónio usado no fabrico de PET, como às chamadas substâncias adicionadas não intencionalmente, conhecidas pela sigla NIAS.
As NIAS referem-se a químicos encontrados no plástico que, geralmente, têm origem em impurezas, subprodutos de reações químicas ou que podem até formar-se posteriormente quando os alimentos são aquecidos. Um estudo mostrou que um aditivo estabilizador UV presente no plástico reagiu com o amido da batata quando aquecido no micro-ondas, criando um composto químico até então desconhecido.
Já vimos este filme: lições do tabaco, do amianto e do chumbo
Embora nada disto seja tranquilizador, não é um cenário inédito. Entre aquilo que sabemos e o que ainda desconhecemos, esperar por provas absolutas tem custos elevados, tanto do ponto de vista económico como da saúde pública. Com o tabaco, o amianto e o chumbo, a história foi semelhante ao que estamos a assistir agora.
Depois de surgirem as primeiras evidências que apontavam para problemas e toxicidade, os lóbis dessas indústrias tentaram desacreditar a validade científica dos estudos, atrasando medidas eficazes. Entretanto, só entre 1950 e 2000, o tabaco foi responsável por cerca de 60 milhões de mortes. Distinguir correlação de causalidade e reunir provas robustas é fundamental, mas também é essencial agir de forma preventiva, em vez de esperar que mais pessoas sejam prejudicadas para provar definitivamente o risco.
E agora?
É aqui que entra o princípio da precaução. Significa inverter o ónus da prova. Em vez de consumidores e investigadores terem de demonstrar que um produto é definitivamente prejudicial, cabe aos fabricantes provar que o seu produto é seguro.
Não é uma ideia nova. Existem já exemplos como o regulamento europeu REACH, assente no princípio “sem dados, sem mercado”. Ou seja, os fabricantes são obrigados a fornecer dados que comprovem a segurança dos seus produtos para que estes possam ser comercializados.
Greenpeace analysis of 24 articles in peer-reviewed scientific journals found that the plastics we use to package our food are directly risking our health.
Heating food in plastic packaging dramatically increases the levels of microplastics and chemicals that leach into our food.
Os governos não estão a agir com a rapidez necessária para reduzir a nossa exposição e proteger a saúde pública. Existem soluções ao nosso alcance. A mais crítica é produzir e consumir menos plástico.
Trata-se de um problema global que exige um Tratado Global dos Plásticos forte, capaz de reduzir a produção global de plástico em pelo menos 75% até 2040 e eliminar os plásticos e químicos nocivos. As empresas também precisam de levar esta ameaça à saúde dos seus consumidores a sério, começando pelas embalagens e materiais em contacto com alimentos.
Eis algumas ações concretas que decisores políticos e empresas podem adotar, bem como sugestões úteis para consumidores:
Decisores políticos e empresas
Implementar o princípio da precaução.
-Para os decisores políticos: proibir a utilização de plásticos e químicos perigosos com base no seu risco intrínseco, e não apenas numa avaliação de níveis “seguros” de exposição.
-Para as empresas: comprometer-se com uma política de “zero libertação” de microplásticos e químicos perigosos das embalagens para os alimentos, acompanhada de um plano de ação com metas claras a cumprir até 2035.
Acabar com as falsas garantias dadas aos consumidores sobre recipientes “seguros para micro-ondas”.
Eliminar progressivamente o uso de plásticos descartáveis e promover sistemas de reutilização e alternativas de embalagem não tóxicas através de políticas e incentivos adequados.
Consumidores
. Incentivar supermercados e lojas locais a reduzir o uso de plástico sempre que possível.
. Evitar aquecer ou reaquecer alimentos em recipientes de plástico.
. Optar por recipientes reutilizáveis sem plástico.
. Evitar o plástico pode ser exaustivo. Se se sente sobrecarregado, não está sozinho. Num sistema obcecado pelo plástico, há um limite para aquilo que cada pessoa pode fazer individualmente. Os produtores de plástico e os grandes poluidores têm de ser responsabilizados, e os governos precisam de agir com maior rapidez para proteger a saúde das pessoas e do planeta.
É urgente que os governos acelerem uma transição justa e centrada nas pessoas para um futuro mais saudável, baseado na reutilização e na redução de resíduos. Esta é uma oportunidade histórica para pôr fim à era do plástico.
. A ação começa agora. Assina a nossa petição por um planeta mais seguro e saudável.
Daniel Read, campaigner de plásticos da Greenpeace EUA, baseado em Brisbane, Austrália.