Entrada de blog por Catarina Canelas - Março 4, 2026


Um ano da Greenpeace Portugal: “Temos uma ferramenta fundamental: a força da equipa”

Um ano depois de regressarmos a Portugal com uma presença permanente, o país vive cada vez mais exposto aos impactos da crise climática. Nesta conversa, Toni Melajoki Roseiro, diretor da Greenpeace Portugal, fala sobre o caminho feito, os desafios que continuam por enfrentar e as decisões que já não podem ser adiadas.

Faz agora um ano que estamos em Portugal com uma equipa dedicada e uma presença permanente. Este primeiro ano coincidiu com uma realidade que já ninguém consegue ignorar: o país está a sentir, de forma cada vez mais evidente, os impactos da crise climática.

Entre temporais, inundações, incêndios, seca e uma sensação constante de urgência, fomos consolidando presença no território, capacidade de resposta e trabalho em rede, sem perder de vista o essencial: a mudança real não se faz com remendos. Faz-se a partir da raiz dos problemas.

Nesta conversa, Toni Melajoki Roseiro, diretor da Greenpeace Portugal, fala-nos sobre o caminho percorrido neste primeiro ano e, sobretudo, sobre aquilo que o país já não pode continuar a adiar: reduzir emissões e vulnerabilidades ao mesmo tempo, proteger pessoas e ecossistemas e exigir transparência e responsabilidade a quem mais polui e a quem decide.

Esta é uma conversa sobre urgência, mas também sobre futuro. E sobre a necessidade de transformar ansiedade em ação.


Abertura da Greenpeace Portugal com a chegada do Arctic Sunrise a Lisboa, fevereiro de 2025.

Entre a urgência e o longo prazo

A celebração do primeiro ano da Greenpeace Portugal coincidiu com um dos períodos meteorológicos mais severos dos últimos tempos. Portugal sentiu de forma concreta o impacto da crise climática, com inundações, evacuações, destruição e episódios extremos associados à tempestade Kristin.

“O país já vinha a viver, em primeira mão, aquilo para que a ciência e a Greenpeace alertam há anos: fenómenos meteorológicos extremos mais frequentes e mais intensos, com impactos que já não podem ser vistos como excecionais”, afirma Toni.

Para o diretor da Greenpeace Portugal, este cenário não apanhou a organização de surpresa. Pelo contrário: veio reforçar a necessidade de trabalhar em duas frentes ao mesmo tempo. “Portugal é particularmente vulnerável, tanto pela sua geografia como pela forma como o território foi sendo organizado. Isso obriga-nos a acelerar duas respostas em paralelo: reduzir as emissões para travar o que ainda pode ser travado e reforçar a adaptação para proteger pessoas e comunidades daquilo que já está a acontecer.”

Criar um novo escritório em plena sucessão de crises não tem sido simples. “É fácil cair na armadilha de viver apenas para reagir a inundações, tempestades e outras situações que exigem resposta imediata.” O grande desafio, diz, tem sido precisamente esse: “equilibrar a resposta à urgência com o trabalho estrutural.”

“A Greenpeace tem de estar presente, mas também de insistir naquilo que muda o sistema por dentro e, por vezes, fora do centro de decisão, mesmo quando o tema desaparece das manchetes.” É nesse equilíbrio entre urgência e persistência que, para Toni, o trabalho ganha verdadeira utilidade pública.

E há uma base sem a qual nada disto se constrói: a equipa. “Estamos a reforçar a nossa presença enquanto organização de referência e credível junto da sociedade, dos meios de comunicação e de quem toma decisões.”

Construir comunidade também é responder

Ao longo deste primeiro ano, a Greenpeace Portugal foi também consolidando grupos de voluntariado e redes locais de ação. Para Toni Melajoki Roseiro, esse trabalho é tão importante como a resposta pública aos grandes temas.

“Isso dá-nos capacidade quando o território precisa, mas dá-nos também, e talvez acima de tudo, sentido coletivo. Num país que vai enfrentar eventos cada vez mais extremos, construir comunidade é uma parte muito importante do que estamos a fazer.”

Essa dimensão de pertença, ligação e mobilização é, aliás, uma das marcas deste arranque da Greenpeace Portugal: criar uma organização mais próxima do território e das pessoas, sem perder ambição nem capacidade de pressão.

A nossa Rede de Voluntariado em Portugal, fevereiro de 2026

Quando a água entra em casa

A tempestade Kristin deixou prejuízos estimados em mais de 4 mil milhões de euros, infraestruturas destruídas e milhões de árvores derrubadas, que agora representam também combustível para incêndios e potenciais pragas. Mas, para o diretor da Greenpeace Portugal, os números contam apenas uma parte da história.

“Quando a água entra em casa, ou quando uma família tem de sair à pressa, tudo deixa de ser abstrato. Isto não é apenas um problema ambiental. É também um problema social e económico.”

Por isso, insiste que é essencial manter o rigor no que se diz e no que se exige. “Existem cada vez mais estudos de atribuição que permitem relacionar eventos concretos com as alterações climáticas. E aquilo que hoje já podemos afirmar, com base na evidência, é que num planeta mais quente certos fenómenos extremos se tornam mais prováveis e mais intensos.”

Em Portugal, isso traduz-se em riscos muito concretos: inundações repentinas, maior pressão sobre as cidades, erosão costeira, impactos na saúde e perdas económicas. “A pergunta é simples: estamos a preparar-nos para esta nova realidade ou vamos continuar a agir como se ela ainda não tivesse chegado?”

Transformar o sistema, não remendá-lo

Para Toni Melajoki Roseiro, a resposta da Greenpeace Portugal assenta em duas frentes que não competem entre si e que têm de caminhar lado a lado.

“A primeira é estar presente na emergência: dar contexto, exigir transparência, denunciar incoerências e impedir que a responsabilidade se dilua quando o choque inicial passa.” Para isso, sublinha, a organização conta com alianças com outras entidades, coletivos locais e cidadania ativa.

A segunda frente é a transformação estrutural. “Precisamos de medidas que reduzam o risco e não apenas de respostas que tratem os sintomas.” Isso implica, defende, mudanças profundas no planeamento urbano, investimento continuado em adaptação, proteção das zonas mais vulneráveis, aceleração da transição energética e coerência entre os objetivos políticos e as decisões concretas no terreno.

“Se continuarmos a agir apenas quando o dano já está feito, estaremos sempre a correr atrás do prejuízo. O objetivo tem de ser outro: reduzir a vulnerabilidade e as emissões ao mesmo tempo.”

Inundações no centro de Portugal durante o combóio de tempestades, fevereiro de 2026

Consciência, sim. Mudanças, ainda não

Apesar de reconhecer uma consciência social mais forte em Portugal, Toni Melajoki Roseiro considera que continua a existir uma distância preocupante entre perceber o problema e agir à altura dele.

“As pessoas já não aceitam tão facilmente que isto seja normal.” A crise climática atravessa hoje a habitação, a saúde, a agricultura e o custo de vida, e isso é cada vez mais evidente.

Mas entre essa perceção e a resposta política continua a existir um bloqueio. “A população entende o problema, mas as decisões estruturais continuam a avançar devagar, muitas vezes presas ao curto prazo e aos interesses instalados.”

É aqui que, diz, a Greenpeace tem um papel claro: encurtar essa distância com informação, mobilização e pressão política. “Há uma ideia muito simples que não podemos perder de vista: não se pode pedir resiliência à sociedade e, ao mesmo tempo, manter políticas que aumentam o risco.”

Uma vulnerabilidade partilhada

Portugal não é um caso isolado. Secas, incêndios e precipitação extrema afetam todo o sul da Europa, e a região mediterrânica partilha vulnerabilidades semelhantes: recursos hídricos sob pressão, território inflamável, zonas costeiras densamente povoadas e uma parte muito significativa da população e da economia concentrada em áreas sensíveis.

Por isso, as respostas também têm de estar à escala do problema. “Há decisões nacionais, claro, mas também decisões europeias e internacionais que determinam a ambição, o financiamento e a direção.”

Essa lógica de articulação também se aplica ao trabalho da própria organização. “Como fazemos parte de uma estrutura regional, em articulação com a Greenpeace Espanha, trabalhamos numa perspetiva conjunta em matérias como relatórios e investigações. Os dois países têm muito em comum: partilhamos rios, florestas, uma mesma biorregião. O ambiente não conhece fronteiras.”

Decisões que não podem esperar

Apesar de reconhecer alguns avanços, o diretor da Greenpeace Portugal é direto: “Não estamos a agir à velocidade necessária.”

E há decisões que, insiste, não podem continuar adiadas nem ficar fechadas em planos sem execução. “Na gestão do território, temos de passar de medidas reativas para medidas preventivas. Para isso, é preciso deixar para trás políticas que apenas remendam e apostar em soluções mais estruturais, como uma transição hidrológica justa e um plano urgente de reforma florestal.”

No caso português, e tendo em conta que o país tem uma das maiores Zonas Económicas Exclusivas da Europa, Toni defende também um passo significativo na proteção do Mar dos Sargaços e um papel de liderança perante a ameaça global da mineração em mar profundo, apesar da moratória que proíbe essa atividade em águas nacionais até 2050.

Quanto aos custos da emergência climática, deixa uma posição clara: “A fatura não pode recair apenas sobre as pessoas. Quem polui tem de pagar.” Por isso, defende um imposto sobre empresas energéticas e agroalimentares e o fim dos subsídios aos combustíveis fósseis, para que esses recursos possam ser canalizados, por exemplo, para o transporte ferroviário.

Na área da reciclagem, lembra ainda que Portugal continua a falhar metas europeias depois de anos de atraso. “Este ano entra em vigor o Sistema de Depósito e Devolução de Embalagens. Vamos acompanhar de perto a sua implementação.”

Mar dos Sargaços, Atlântico Norte

O custo do negacionismo

Toni Melajoki Roseiro alerta também para o impacto dos discursos negacionistas e para o efeito corrosivo de se pôr em causa o trabalho científico.

“Não é apenas retórica. É tempo perdido. E o tempo é o nosso recurso mais escasso.” Quando a ambição diminui, avisa, “ganham os interesses instalados e perdem as pessoas e os ecossistemas”.

Transformar a ansiedade em ação

Depois de um ano tão intenso, o que mais o surpreendeu foi “a rapidez com que o extraordinário se torna habitual”. Mas também a energia da sociedade civil.

Com grupos ativos em Braga, Porto e Lisboa, Toni Melajoki Roseiro diz ver motivos para acreditar. “Há uma vontade real de fazer as coisas de outra maneira.”

E conclui: “O nosso trabalho é transformar a ansiedade em ação e a ação em mudanças concretas. Para este desafio, é também um privilégio contar com o apoio e a experiência do escritório espanhol. Juntos, somos imparáveis.”

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