Um ano húmido não é um ano seguro (face ao fogo)
Portugal é o país europeu mais afetado por incêndios em proporção do seu território: desde 1980 arderam quase 3 milhões de hectares, aproximadamente um terço do país.
Após invernos e primaveras chuvosos, é habitual ouvir dizer que “será um bom ano para os incêndios”. Faz sentido pensá-lo porque o teor de humidade da vegetação é um fator fundamental na avaliação da probabilidade de incêndio e da propagação depois de iniciado. Mas atenção: pensar que um ano húmido garante uma campanha tranquila não só é falso, como é perigoso, porque pode gerar uma perigosa falsa sensação de segurança e baixar a guarda nas políticas preventivas e na perceção do risco.
Não temos de ir mais longe do que 2025. Segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), 2025 foi o terceiro ano mais chuvoso desde 2000 e o mais húmido em mais de uma década. E, no entanto, nesse ano registaram-se 8.235 incêndios florestais, menos 29% de incêndios, mas mais 119% de área ardida relativamente à média do período 2015-2024. Ou seja, menos ignições, mas incêndios muito mais extensos e destrutivos.
Em poucos incêndios, 96 dos 8.235, ocorreu praticamente a totalidade da área ardida, 96%. Embora, em média, 83% dos incêndios fiquem abaixo de 1 hectare, graças à eficácia dos operacionais de extinção, a maior parte da área ardida concentrou-se em episódios extremos.

Mais chuva significa mais biomassa e mais risco
As chuvas favorecem o crescimento de pastagens, matos e regeneração florestal. Quando chegam as ondas de calor, essa vegetação seca e passa a converter-se em alimento para o fogo: combustível fino morto, que arde melhor e dá continuidade às chamas.
Por isso, em sistemas mediterrânicos como os da Península Ibérica, uma primavera chuvosa pode aumentar o potencial de propagação do fogo no verão. O risco não depende apenas de quanto choveu, mas do que acontece depois com essa biomassa.
A ciência é clara: as alterações climáticas estão a multiplicar o agravamento dos incêndios florestais
A comunidade científica alerta de forma recorrente para a relação entre os incêndios de alta intensidade e as alterações climáticas, IPCC, OMM, Copernicus, AEMET, etc. Agrava as condições meteorológicas que favorecem o risco de propagação de incêndios; as massas florestais estão fora do seu intervalo climático e, por isso, mais inflamáveis.
E, relativamente ao tema deste artigo, um estudo recente publicado em 2026 na Nature Communications demonstra que os anos extremos de incêndios florestais não dependem necessariamente de secas prolongadas prévias nem do que tenha chovido em temporadas anteriores, mas sobretudo das condições meteorológicas extremas durante o próprio ano do incêndio.
E confirmamos isso com a realidade que vivemos no ano passado através de outro estudo da World Weather Attribution (WWA), de setembro de 2025, que concluiu que as alterações climáticas tornaram 40 vezes mais prováveis e 30% mais intensas as condições meteorológicas extremas que provocaram incêndios devastadores em Portugal e Espanha. Um verão precedido por um ano chuvoso. Se, além disso, somarmos um aumento de biomassa vegetal após as chuvas passadas, temos alimento para o fogo.

Isto vai aumentar, se não atuarmos.
As alterações climáticas e a mudança no uso do solo fazem com que os incêndios florestais sejam mais frequentes e intensos, com um aumento mundial dos incêndios extremos de até 14% até 2030, 30% até finais de 2050 e 50% até ao final do século.
As alterações climáticas não originam, mas agravam. Por isso aqui ainda temos muito por fazer.
Em 2025, os incêndios em Portugal foram maioritariamente de origem humana: 31% intencionais e 23% associados a queimas agrícolas ou florestais, enquanto os raios representaram apenas 1%. Ainda assim, cerca de 41% dos incêndios não têm causa conhecida. Fonte: 8.º relatório provisório de incêndios rurais, Direção Nacional de Gestão do Programa de Fogos Rurais.
Embora se tenham reduzido as ignições, em poucos incêndios ocorre o desastre. É preciso continuar a reduzir ignições, investigando as causas e comunicando as consequências de atear fogo.
Mais do que nunca, num cenário de máxima vulnerabilidade. Porque, mesmo reduzindo as ignições antrópicas, continuará a haver incêndios provocados por raios, e as alterações climáticas aumentarão os incêndios florestais provocados por raios de tempestade. É preciso reduzir emissões para evitar o agravamento e é preciso intervir no território.
O abandono rural e a despovoação reduziram a gestão quotidiana da paisagem e favoreceram a acumulação de biomassa vegetal; a fragmentação da propriedade florestal dificulta o planeamento preventivo à escala territorial; e as alterações na cobertura florestal, especialmente a expansão de monoculturas de espécies como o eucalipto. A isto soma-se uma extensa interface urbano-florestal que aumenta a exposição de habitações e infraestruturas ao fogo e torna mais complexo o plano de extinção.
Como vemos, muito mais do que extinção, é preciso avançar para uma redução de ignições, uma gestão integrada do território baseada na prevenção ativa, participação social e melhor coordenação institucional. É preciso reforçar o investimento público em gestão florestal, melhorar o registo da propriedade, apoiar proprietários e municípios, e aumentar a vigilância e a educação ambiental para reduzir o risco estrutural associado ao uso do fogo.
Monica Parrilla, Coordenadora de Campanhas da área de Biodiversidade da Greenpeace Espanha