Apresentação do relatório “Energia para viver melhor”

Abril 20, 2026

Greenpeace demonstra que Portugal e Espanha podem alcançar emissões líquidas nulas em 2040, dez anos antes do previsto pela Comissão Europeia.

  • Na véspera da histórica Cimeira de Santa Marta (Colômbia) sobre o fim dos combustíveis fósseis, a Greenpeace demonstra que Portugal e Espanha podem alcançar a neutralidade climática em 2040, dez anos antes do previsto pela Comissão Europeia.
  • Trata-se de um sistema energético que reduz o consumo de energia em 39% face ao consumo atual e o cobre a 100% com energias renováveis.
  • O relatório incorpora o conceito de “suficiência” para reduzir o consumo energético em atividades prejudiciais para as pessoas e para o ambiente.
  • O modelo permitiria poupar 7 mil milhões de euros anuais em Portugal em investimentos para geração de eletricidade e calor, bem como em combustíveis.

Lisboa, 20 de abril de 2026 – A Greenpeace lança hoje o relatório “Energia para viver melhor: Roteiro para uma energia suficiente, eficiente e 100% renovável até 2040 na Península Ibérica”: um estudo técnico ambicioso que analisa as soluções para que a nossa energia não dependa do contexto geopolítico nem das superpotências que controlam os combustíveis fósseis.

A receita de “Energia para viver melhor” baseia-se em três ingredientes-chave: suficiência, eficiência e 100% renováveis, que permitem deixar para trás definitivamente os combustíveis fósseis, a energia nuclear e as guerras ligadas a estes antes de 2040, dez anos antes do previsto pela Comissão Europeia. Trata-se de um sistema que reduz a procura de energia em 39% face ao consumo atual e a cobre a 100% com renováveis até 2040.

O estudo, elaborado pelo Institute for Sustainable Futures da Universidade Tecnológica de Sydney (UTS-ISF) para a Greenpeace Espanha e Portugal, oferece uma resposta técnica e política à inflação fóssil e à insegurança energética que hoje atinge os lares em Portugal. Trata-se de uma proposta para que toda a cidadania da Península Ibérica, Baleares e Ceuta possa satisfazer as suas necessidades energéticas legítimas para uma vida digna, melhorando a sua qualidade de vida, e para evitar que as alterações climáticas ultrapassem irreversivelmente o limite de 1,5 ºC e de forma compatível com os restantes limites planetários.

Para Toni Melajoki Roseiro, “Portugal não pode continuar refém de contextos geopolíticos instáveis nem de superpotências que controlam os combustíveis fósseis. O relatório que hoje apresentamos prova que é tecnicamente viável e economicamente sensato alcançar a neutralidade climática até 2040, dez anos antes da meta definida pela Comissão Europeia. Temos sol, vento e tecnologia. O que nos falta é a coragem política para acelerar este calendário.”  

O diretor da Greenpeace Portugal acrescenta que “A transição não é um custo, é um investimento com retorno imediato. Este modelo permitiria a Portugal poupar 7 mil milhões de euros por ano em combustíveis e geração de energia. Num país onde a pobreza energética continua a afetar tantas pessoas, esta é a única forma de garantir que a energia seja um direito básico e universal, e não um luxo sujeito à volatilidade da inflação fóssil.”  

“As guerras atuais apenas confirmam aquilo para que a emergência climática já nos alertava com urgência: abandonar o gás e o petróleo é uma prioridade inadiável. Uma aposta decidida na suficiência, na eficiência e num sistema 100% renovável é a única garantia de bem-estar e segurança, tanto climática como geopolítica, para as próximas gerações”, declara Eva Saldaña, diretora executiva da Greenpeace Espanha e Portugal. “Na Greenpeace temos um plano que o torna possível, com um horizonte de 15 anos, uma poupança de 32 mil milhões, uma redução de 39% na energia final e um convite à ação. Vamos torná-lo realidade! Merecemos um amanhã em que a energia não alimente as guerras nem o medo, mas sim a alegria de um planeta vivo e vidas dignas para todas as pessoas que o habitam”, conclui Saldaña.

O relatório Energia para viver melhor baseia-se em cenários energéticos que analisam detalhadamente 20 setores da economia ibérica (1), comparando a procura energética e a sua cobertura em três cenários: o cenário de continuidade, BAU (Business As Usual), baseado nas políticas atuais; o cenário Energia 4.0 (E4.0), que estuda um modelo baseado em medidas de eficiência e cobertura da procura a 100% com renováveis; e o cenário Energia 4.1 (E4.1), que incorpora a suficiência ao cenário anterior.

Suficiência e eficiência são aliadas e complementares na redução da procura de energia e de recursos, começando pelo desperdício, pela poluição e pela repartição injusta do acesso aos serviços energéticos; a eficiência consegue prestar os mesmos serviços com menos recursos, enquanto a suficiência prioriza que serviços e em que quantidade trazem uma melhoria na qualidade de vida para todas as pessoas e para nos mantermos dentro dos limites planetários.

O Prof. Dr. Sven Teske, autor principal da UTS-ISF, declarou: “A transição energética é rentável, tecnicamente viável e potenciará a criação de valor local. Uma decisão política audaz e com visão de longo prazo para levar a cabo a transição para uma energia suficiente, eficiente e 100% renovável garantirá a segurança do abastecimento energético e proporcionará uma vantagem económica para a próxima geração.”

Para Ana Farias Fonseca, Coordenadora de Campanhas e Mobilização da Greenpeace Portugal, “Nada é mais fácil de compreender do que a urgência de nos libertarmos de uma dependência de combustíveis fósseis que alimenta guerras e faz disparar os preços da energia e da comida no imediato. Estamos a falar de viver bem, em paz, com qualidade de vida e soberania energética, através de um caminho que é absolutamente possível e que está ao nosso alcance agora. Para isso, não precisamos de esperar por invenções tecnológicas futuras, mas sim de coragem, liderança e de decisões políticas firmes no presente, porque a energia para uma vida melhor depende exclusivamente das decisões e ações que tomarmos hoje.”

Principais conclusões do relatório para Portugal:

Para a Greenpeace, a transição não consiste apenas em mudar uma fonte de energia por outra, mas sim em melhorar o modelo energético com base em três eixos fundamentais: suficiência, eficiência e renováveis. Isto aumenta as possibilidades de alcançar uma descarbonização profunda, ao mesmo tempo que minimiza o risco, os custos, a desigualdade, a ocupação do solo e, juntamente com a reciclagem, a extração dos minerais críticos da transição.

1. De vítimas das alterações climáticas a líderes da transição energética: Portugal pode ganhar 10 anos e alcançar emissões energéticas líquidas nulas em 2040.

a. sem contar com a perigosa e dispendiosa energia nuclear espanhola nem recorrer a sistemas artificiais de captura e armazenamento de carbono;
b. dar um salto na ambição climática face aos atuais planos climáticos, que não permitem cumprir o Acordo de Paris;
c. reduzir os impactos futuros das alterações climáticas;
d. e sem apagões.

2. Redução da procura: É possível reduzir a procura final de energia em pelo menos 39% até 2040 (face aos níveis atuais) com medidas de suficiência, eficiência e eletrificação. Por setores, uma redução da procura de:

  1. 72% nos transportes
  2. 20% na habitação
  3. 26% na indústria

por meio de medidas de suficiência e eficiência. Podem alcançar-se reduções de 72% na procura do setor dos transportes, 26% na indústria e 20% nos edifícios, face aos níveis atuais.

3. Cumprir o Acordo de Paris: graças à soma da suficiência à eficiência e às renováveis, é possível manter o sistema energético dentro do orçamento de carbono (2), ganhando em segurança e rapidez de transição.

4. Poupança económica: A transição é muito mais barata do que a inação e representa uma melhoria de bem-estar. O cenário proposto pela Greenpeace permitiria poupar 7 mil milhões de euros anuais em Portugal em investimentos em geração de eletricidade e calor, bem como em custos com combustíveis, em comparação com a continuação das políticas atuais (BAU).

5. Minerais críticos: graças à suficiência e à reciclagem de alta eficiência (3), minimiza-se a pressão sobre os recursos materiais, como os minerais críticos. Por exemplo: a procura de lítio em 2040 multiplicar-se-ia por 4,7 vezes face a hoje, mesmo que se apliquem medidas de reciclagem e suficiência, mas cresce de forma muito mais contida do que se nenhuma dessas duas medidas fosse introduzida: cerca de 75% menos.

6. Território e solo: O relatório defende uma implementação ordenada das energias renováveis, compatível com a proteção da biodiversidade, a soberania alimentar e a democracia. O cenário de suficiência (E4.1) poupa 120.000 hectares de ocupação de solo em toda a Península Ibérica face ao cenário sem suficiência (E4.0), o equivalente a duas vezes a superfície da ilha de Ibiza.

7. Justiça social: O relatório aposta em reduzir a procura de energia e, ao mesmo tempo, garantir o acesso aos serviços energéticos como um direito básico e universal.

A Greenpeace sublinha que este modelo não só trava as alterações climáticas, como também melhora a saúde pública ao evitar que as cidades sejam asfixiadas pela poluição e pelo trânsito e reduz a fatura energética dos lares, melhorando o seu conforto térmico, demonstrando que viver melhor com menos consumo de energia é tecnicamente possível e socialmente urgente.

Exigências da Greenpeace

A apresentação do relatório coincide com os preparativos da Cimeira de Santa Marta, na Colômbia (24-29 de abril), onde delegações de pelo menos 45 governos de todo o mundo se reunirão para avançar para um plano de abandono dos combustíveis fósseis. Neste contexto, a Greenpeace assinala que Portugal se encontra numa posição de privilégio estratégico.

A Greenpeace pede ao Governo português que leve à Cimeira de Santa Marta um compromisso firme para liderar o abandono global dos combustíveis fósseis.

  • Convida a cidadania a juntar-se ao desafio de o tornar realidade: organizar-se e colaborar, ocupar o espaço público, reivindicar participação nas decisões políticas, criando alternativas cidadãs para melhorar a forma de usar e gerar energia.
  • Exige ao governo português um “Contrato Social Verde” que acelere a transição e maximize os seus benefícios económicos, sociais e ambientais a favor da maioria social com as seguintes medidas:
  • Um plano de saída dos combustíveis fósseis até 2040, que seja benéfico para toda a cidadania, que fixe um calendário de objetivos por setores em linha com o demonstrado no relatório:

a. Reduzir a procura de gás fóssil em 77% e a de petróleo em 68% na próxima década (2035), até à sua eliminação total em 2040.
b. Reduzir a procura final total de energia em pelo menos 39% até 2040 (face aos níveis atuais), com medidas de suficiência, eficiência e eletrificação. Por setores:

  1. 72% nos transportes
  2. 20% na habitação
  3. 26% na indústria
    c. Acelerar os planos de eletrificação da economia com renováveis, armazenamento e gestão inteligente da rede elétrica para alcançar quotas de pelo menos 70% nos transportes, 65% na indústria e 80% no setor residencial e comercial.
    d. Alcançar um sistema energético 100% renovável em 2040, duplicando a instalação de potência renovável e triplicando a do autoconsumo até 2040, face a hoje.
  • A reconversão dos empregos nos setores dependentes dos combustíveis fósseis e noutros setores (4) destinados a reduzir a sua produção, contando com planos e fundos para a transição justa.
  • O ordenamento da implementação das energias renováveis, excluindo as zonas protegidas e de máxima sensibilidade ambiental, assim como priorizando as zonas de baixa sensibilidade e os projetos comunitários.
  • A priorização da reciclagem de minerais de alta eficiência face à extração primária e dos usos para a transição energética face a outros, como os militares.
  • Acabar com as ajudas e subsídios fósseis, ineficientes e prejudiciais, em setores poluentes, e reinvestir os abundantes recursos em soluções que beneficiem as maiorias sociais, como o transporte público, a reabilitação de habitações, a adaptação de vilas e cidades, a restauração de ecossistemas ou a redistribuição de recursos para os grupos e países mais afetados pela emergência climática.
  • Criar um Parlamento Cidadão Permanente, como instrumento para democratizar a tomada de decisões, impulsionando uma transição ecossocial como esforço coletivo, a partir das realidades locais e em que a população afetada seja protagonista do seu futuro através de processos de planeamento e decisão inclusivos.

Notas

(1) Foi analisada a procura de energia e as emissões energéticas dos seguintes setores e subsetores: transportes (doméstico e 50% do internacional), agricultura (produção de alimentos e tabaco), indústria papeleira, indústria química (produção de todos os produtos químicos, petroquímicos, vidro e produtos cerâmicos), alumínio, têxteis e couro, edifícios, centros de dados, saneamento e distribuição de água.

(2) O orçamento global de carbono foi repartido com base na população de cada país.

(3) Em comparação com a mineração, a reciclagem de recursos “à superfície” pode reduzir significativamente os impactos ambientais e sociais. Entre as possíveis fontes incluem-se as baterias usadas, os resíduos de produção, os resíduos eletrónicos domésticos e as pilhas de sucata industrial. A reciclagem de baterias de veículos elétricos tem potencial para reduzir significativamente a nova atividade mineira.

(4) Foram introduzidas medidas de suficiência nos seguintes setores: transporte aéreo, uso do automóvel privado individual, transporte de mercadorias, produção química, cimenteira e siderurgia. Em alguns outros setores foi impossível introduzir estas medidas, seja por falta de dados (ex: setor militar), seja porque a produção se encontra maioritariamente fora de Espanha e Portugal (ex: moda rápida).

Mais informação:

  • Resumo executivo do relatório aqui
  • Relatório científico completo elaborado pela UTS-ISF (em inglês) aqui
  • Vídeo de lançamento aqui
  • Petição aqui

Contactos:

Catarina Canelas, Coordenadora de Comunicação da Greenpeace Portugal

ccanelas@greenpeace.org , 913 913 323

Ana Farias Fonseca, Coordenadora de Campanhas e Mobilização da Greenpeace Portugal

afarias@greenpeace.org , 913 913 343

Toni Melajoki Roseiro, Diretor da Greenpeace Portugal

toni.melajoki@greenpeace.org


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