GREENPEACE DENUNCIA O USO DO MEDO DO “GRANDE APAGÃO” PARA TRAVAR AS RENOVÁVEIS E PROLONGAR A DEPENDÊNCIA DO GÁS FÓSSIL
- Na véspera do primeiro aniversário do apagão que afetou a Península Ibérica, a organização ambientalista desmonta os mitos energéticos usados para travar a transição para um sistema 100% renovável.
- A Greenpeace sublinha que, com base nos relatórios técnicos publicados até ao momento, a verdadeira ameaça não é o aumento da produção renovável, mas sim a falta de modernização das redes, de armazenamento, de flexibilidade e a persistente dependência dos combustíveis fósseis.
Lisboa, 27 de abril de 2026 – Na véspera do primeiro aniversário do “grande apagão elétrico” na Península Ibérica, a Greenpeace denuncia o uso do medo, como estratégia para travar o desenvolvimento das energias renováveis e prolongar a dependência do gás fóssil e de tecnologias caras, poluentes e pouco flexíveis.
O apagão de 28 de abril de 2025 afetou de forma significativa Portugal continental e Espanha, interrompendo o fornecimento de eletricidade a milhões de pessoas e com impactos nos transportes, nas comunicações, nos serviços públicos, nas empresas e na vida quotidiana das famílias. Em Portugal, o incidente expôs a vulnerabilidade de infraestruturas essenciais perante uma falha sistémica e reforçou a necessidade de acelerar a modernização e a resiliência do sistema elétrico.
Os relatórios técnicos publicados até ao momento apontam para uma combinação de fatores ligados ao controlo da tensão, à gestão da potência reativa, à coordenação da rede e à resposta dos operadores. No caso português, o relatório europeu afastou responsabilidade direta de Portugal na origem do incidente, que teve início no sistema elétrico espanhol, mas a dimensão dos impactos mostrou como a segurança energética da Península Ibérica depende de sistemas mais robustos, mais flexíveis e mais preparados para responder a perturbações.
Vídeo com declarações de Eva Saldaña, diretora-executiva da Greenpeace Espanha e Portugal aqui
Para o diretor da Greenpeace Portugal, “a resposta ao apagão não pode ser usada para alimentar medo em relação às renováveis, nem para defender soluções que mantêm o país dependente de combustíveis fósseis. Pelo contrário, deve servir para acelerar as decisões que Portugal já devia estar a tomar: modernizar a rede elétrica, reduzir a dependência do gás, investir em armazenamento e preparar o sistema para uma economia cada vez mais eletrificada.”
Toni Melajoki Roseiro acrescenta que “o caminho para uma maior segurança energética também passa por aproximar a energia às pessoas. O autoconsumo e as comunidades de energia são essenciais para aproximar a produção das pessoas, reduzir desperdícios, aliviar a pressão sobre o sistema e tornar as famílias, as empresas e até as autarquias, uma parte ativa da solução. A segurança energética do futuro constrói-se com mais renováveis mas também com mais democracia energética, justiça e capacidade de resposta.”
A Greenpeace demonstrou, com o estudo Energia para viver melhor, que a suficiência e a eficiência para reduzir a procura total de energia, em conjunto com as renováveis, o armazenamento e a eletrificação, são a chave tecnológica para que Portugal e Espanha possam abandonar os combustíveis fósseis e a energia nuclear até 2040. No caso português, onde não existem centrais nucleares, este caminho passa sobretudo por acelerar a saída do gás fóssil, reduzir a dependência externa, modernizar a rede e garantir que a transição energética é feita de forma justa, segura e acessível.
O primeiro aniversário do apagão acontece, precisamente, durante a primeira Conferência Internacional para uma transição para lá dos combustíveis fósseis, em Santa Marta, na Colômbia. A Greenpeace exige aos governos que aproveitem este momento histórico para impulsionar planos concretos de abandono dos combustíveis fósseis e medidas fiscais justas sobre a indústria fóssil.
Desmontar a narrativa do medo de avançar na transição energética
Mito 1: “Havia renováveis a mais”
A realidade. O relatório da ENTSO-E é claro a este respeito: as renováveis não tiveram culpa. A falha não teve a ver com as tecnologias usadas para produzir eletricidade, mas sim com a forma como essas tecnologias estavam a operar, nomeadamente no controlo da tensão. A segurança do sistema depende de uma rede preparada, de serviços de flexibilidade, de armazenamento, de uma boa gestão da procura e de uma coordenação eficaz entre operadores.
Na verdade, enquanto o apagão acontecia na Península Ibérica, outros países europeus operavam com quotas elevadas de energia eólica e fotovoltaica sem registarem apagões semelhantes. Culpar as renováveis por uma falha de controlo de tensão, é uma leitura tecnicamente errada e politicamente perigosa.
Culpar as renováveis num cenário de apagão para proteger os interesses fósseis e nucleares de grandes empresas energéticas e de quem defende esses interesses, não é novidade. Viu-se isso nos apagões do Texas (EUA), em 2021, da Califórnia (EUA), em 2020, do Reino Unido, em 2019, e da Austrália Meridional, em 2016; embora em todos esses casos tenha ficado demonstrado o contrário.
Mito 2: “Precisamos da energia nuclear para evitar apagões”
Portugal não tem centrais nucleares, mas este mito continua a ser usado no debate energético ibérico e europeu para defender tecnologias caras, lentas e pouco flexíveis, e para tentar travar o avanço das renováveis.
Pelo contrário, a energia nuclear revelou-se um entrave em momentos de crise. No dia do incidente, mais de metade do parque nuclear espanhol estava operacional e não só não ajudou a manter a segurança do sistema, como dificultou a recuperação. Centrais que estavam operacionais antes do apagão, como Almaraz, Ascó e Vandellòs II, têm hoje processos sancionatórios abertos pela CNMC, por não terem contribuído para estabilizar o sistema, apesar de terem recebido pagamentos para o fazer.
Além disso, a energia nuclear é “lenta” por natureza. Devido ao chamado “veneno de xénon” e ao stress térmico dos seus materiais, depois de desligada por segurança, demora dias a voltar a estar operacional. Enquanto as centrais hidroelétricas e as centrais a gás conseguiram ajudar a recuperar o sistema em poucas horas, as nucleares demoraram mais tempo a regressar à normalidade.
Um sistema elétrico dependente de centrais nucleares é menos resiliente e menos flexível. A segurança energética do futuro exige tecnologias capazes de responder rapidamente às necessidades do sistema, não infraestruturas rígidas, caras e difíceis de adaptar.
Mito 3: “Sem gás, não podemos viver”
Este é o mito mais relevante para Portugal. Embora as centrais de ciclo combinado a gás tenham desempenhado um papel na recuperação do serviço depois do apagão, isso não significa que devam ser tratadas como solução permanente para a segurança energética.
A dependência do gás fóssil mantém Portugal exposto à volatilidade dos preços internacionais, à importação de combustíveis fósseis, às emissões de CO₂ e a um modelo energético centralizado que atrasa a transição para fontes limpas, locais e renováveis.
Em Espanha, 16 centrais a gás, da Naturgy, Endesa, Iberdrola e Repsol, falharam no seu dever de controlar a tensão para evitar o próprio apagão, precisamente quando eram mais necessárias. Tinham recebido pagamentos por um serviço que, no fim, não prestaram. Por esse motivo, juntamente com três centrais nucleares, enfrentam processos sancionatórios muito graves por parte da CNMC.
No entanto, durante o primeiro ano após o apagão, as centrais a gás receberam receitas ainda maiores através do modelo de “operação reforçada” da rede elétrica, que mantém mais centrais ligadas “por precaução”, aumentando as faturas das famílias e empresas e as emissões de CO₂.
E, como se isso não bastasse, o oligopólio pede agora “pagamentos de capacidade”, ou seja, pagamentos garantidos para que estas centrais fiquem disponíveis mesmo quando não produzem, assegurando benefícios “caídos do céu”, enquanto o planeta aquece.
Mas a recente habilitação das renováveis para o Controlo Dinâmico de Tensão, P.O.7.4, está a conseguir reduzir os ciclos combinados a gás em restrições técnicas, diminuir a importação de gás metano, reduzir as emissões de CO₂ e baixar o preço da eletricidade para os consumidores.
A Greenpeace defende que o caminho para a estabilidade do sistema não passa por reforçar o papel das centrais térmicas a gás, mas sim por permitir que as fontes renováveis, o armazenamento e a gestão flexível da procura possam prestar os mesmos serviços sem os custos, as emissões e a dependência de potências estrangeiras associadas ao gás fóssil.
Mito 4: “Só com renováveis não conseguimos funcionar”
A Greenpeace acaba de demonstrar, no estudo Energia para viver melhor, que Portugal e Espanha podem abandonar os combustíveis fósseis e a energia nuclear, sem apagões, até 2040, graças a uma redução da procura energética total de 39% e cobrindo 100% da procura com energias renováveis.
Neste modelo, o sistema elétrico atual quase duplica devido à elevada eletrificação introduzida. O estudo demonstra também que é possível fornecer 100% da eletricidade nas 24 horas do dia, durante os 365 dias do ano, graças a uma combinação de diferentes fontes renováveis, como a energia eólica, hídrica, solar fotovoltaica e solar termoelétrica, apoiadas por armazenamento e gestão da procura.
No caso português, isto significa acelerar a eletrificação, reforçar a rede, investir em armazenamento, reduzir o desperdício energético, promover o autoconsumo e as comunidades de energia, e garantir que as renováveis podem prestar os serviços de estabilidade que o sistema necessita.
“Em conclusão: as grandes empresas do oligopólio falharam na hora de nos proteger do apagão e, ainda assim, tanto a Repsol como a Iberdrola, a Naturgy e a Endesa continuam a multiplicar benefícios com a operação reforçada. Precisamos de um imposto extraordinário sobre estas empresas para que as rendas extraídas à custa das faturas das famílias e das PME, sejam usadas na luta contra a pobreza energética e numa transição energética justa, ágil e respeitadora da biodiversidade. Queremos energia para viver melhor, não para fazer crescer as contas das empresas do oligopólio”, declarou Sara Pizzinato, responsável pela campanha de energias renováveis da Greenpeace.