Entrada de blog por Ana Farias Fonseca - Fevereiro 4, 2026


AGIR ANTES DA PRÓXIMA TEMPESTADE

Em Portugal, país que se encontra na linha da frente do impacto das alterações climáticas, há muito que sabemos que não podemos continuar a aceitar o “novo normal” climático. Neste momento – e noutros que certamente virão – se nada for feito, lidamos com a consequência de um modelo económico que queima o nosso futuro para alimentar os lucros de uma minoria.  

Hoje, continuamos a acordar com as consequências de um conjunto de fatores previstos e repetidamente alertados pela ciência e também pela sociedade civil.

O limite foi ultrapassado

Os dados globais de 2024 e 2025 não deixam dúvidas. Pela primeira vez, a temperatura média mundial superou o limite de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais. Em março de 2025, de acordo com o Global Monitoring Laboratory (GML) da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA) nos Estados Unidos, a concentração de CO2 na atmosfera atingiu o máximo histórico de 430 partes por milhão (ppm). 

Por cada 1°C que a temperatura do oceano sobe, a humidade da atmosfera aumenta 7%. O resultado? Tempestades mais lentas, mais húmidas e muito mais destrutivas.

A realidade portuguesa

Em Portugal (e no mundo!), a crise climática não pede licença. A Tempestade Kristin, no início deste ano, foi mais um lembrete duro. Dificilmente alguém esquecerá os ventos de velocidades recorde que provocaram, pelo menos, 10 mortes e que deixaram cerca de 850 mil pessoas sem eletricidade, ou as imagens de regiões como Leiria, Ourém, Marinha Grande, Alcácer do Sal ou Coimbra que viram as suas comunicações colapsar ou as ruas transformadas em verdadeiros rios, isolando comunidades inteiras.

Além deste fenómeno extremo, o ano de 2025 também ficará na memória como o pior ano de sempre em termos de área ardida, ultrapassando a marca trágica de 269 mil hectares (o mega-incêndio de Arganil que, a nível de área ardida foi o maior incêndio desde que há registo no país). Até o emblemático Pinhal de Leiria, que ainda tentava erguer-se das cinzas de 2017, foi novamente fustigado. Primeiro pelo fogo, depois pelos ventos extremos da Kristin, que derrubaram o que restava da regeneração natural.

O mar está a subir

Segundo a NASA, o nível médio do mar subiu 5,9 mm, apenas em 2024. As nossas cidades costeiras e o ordenamento do território continuam a ignorar que o mar não negoceia espaço. A pavimentação excessiva das nossas cidades impede a infiltração da água, transformando qualquer chuva torrencial numa inundação súbita que destrói infraestruturas e bens.

O perigo das notícias falsas

Inspirados pela trágica experiência espanhola com as DANAs, temos de dizer sem rodeios: o negacionismo pode custar vidas. A desinformação climática não é uma opinião inofensiva, mas sim um obstáculo à proteção civil e uma ferramenta para as principais empresas poluidoras continuarem a sua atividade sem escrutínio.

O que precisamos agora?

Não precisamos de mais “preocupação”, precisamos de ação:

  • Justiça climática: As principais empresas poluidoras devem assumir a responsabilidade das suas ações (os maiores responsáveis pelo aumento do gases de efeito de estufa na atmosfera) e contribuírem ativamente para pagar a conta da saúde de um planeta debilitado. 
  • Transição 100% renovável e democrática: Abandonar os combustíveis fósseis através de um compromisso e calendários vinculativos.
  • Adaptação urgente: Reforçar as redes elétricas e de comunicação para resistirem a eventos extremos.
  • Literacia científica: Combater ativamente os mitos que possam impedir a resposta rápida às crises.

Portugal tende a arder no verão e a inundar-se no inverno. A janela de oportunidade para evitar o pior está a fechar-se, mas ainda vamos a tempo! 

Assina a nossa petição. Junta a tua voz antes da próxima tempestade.

Ana Farias Fonseca, Coordenadora de Campanhas e Mobilização da Greenpeace Portugal

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