Entrada de blog por Toni Melajoki - Julho 28, 2026


Antes que tudo seja cinza

Crescer com raízes divididas deu-me o privilégio de aprender a ler o mundo através das árvores. Parte da minha infância foi moldada pelas vastas, densas e silenciosas florestas da Finlândia, onde a natureza impõe uma escala de paciência e respeito absoluto. Mas o meu mapa afetivo completou-se em Portugal: nas serras esculpidas de Fafe, com o seu verde vigoroso e o pulsar granítico do Norte, e na envolvência quase mística da Serra de Sintra, onde o Atlântico abraça uma canópia densa e sussurrante. Foi no meio destes três ecossistemas tão distintos que aprendi a respirar e a compreender que uma floresta viva é o maior escudo que temos para proteger o futuro. Hoje, quando olho para o panorama florestal português, o sentimento é de profunda tristeza. Aqueles trilhos que na minha infância significavam biodiversidade, frescura e equilíbrio, transformaram-se, em grande parte do país, numa bomba-relógio de combustível pronta a arder. O fumo que rasga os céus de Portugal todos os verões não é apenas consequência da fatalidade meteorológica e climática, embora agrave o problema. Estamos na linha da frente da emergência climática. Na Península Ibérica, as secas prolongadas e as ondas de calor já não são exceções: são o novo normal alimentado por indústrias fósseis que continuam a lucrar enquanto o planeta sobreaquece. Contudo, o clima extremo apenas acende o rastilho que nós próprios plantámos. O verdadeiro drama português reside no desordenamento da paisagem.

Testeira, Vila Real. Cimeira do Alvão Dam. Alvão Mountain Range / Vila Real. A fire affected 6,000 hectares during the first half of August. Approximately 1,500 hectares were within Alvão Natural Park. Affected villages: Grama and Sirarelhos. The fire spread over 14 kilometers between Mascoselo (Mondim de Basto) and Samardã (Vila Pouca de Aguiar).

O abandono crónico do mundo rural abriu espaço e à proliferação descontrolada de matagais e para a expansão massiva de monoculturas industriais, com o eucalipto à cabeça, desenhada para alimentar o lucro rápido das celuloses, em detrimento da segurança coletiva e do bem comum. Substituímos a complexidade rica de uma floresta biodiversa por autênticos “desertos verdes”, contínuos e altamente inflamáveis. A Sintra da minha infância, com o seu microclima húmido e vulnerável, ou as encostas de Fafe, enfrentam hoje uma pressão humana e ambiental sem precedentes porque perdemos a capacidade de gerir o território com uma visão de largo prazo. Perante isto, a resposta política tem sido lamentavelmente reativa. Existe uma obsessão pelo combate que secundariza a prevenção estrutural. Investem-se verdadeiras fortunas públicas em meios de extinção – aviões, helicópteros, viaturas pesadas -, o que, embora honre o esforço heróico dos operacionais no terreno, equivale a tentar apagar um vulcão com baldes de água. Politicamente, o combate é mediático e visível; o sucesso da prevenção é silencioso e invisível. Uma faixa de gestão de combustível bem executada ou o restauro de uma linha de água com espécies autóctones não geram títulos de jornal, mas salvam vidas e ecossistemas.

Trancoso / Satao, Viseu. Portugal. October 05, 2025. This Greenpeace report analyses the evolution of the risk of forest fires in Portugal since 1867. It identifies how rural depopulation, an ageing population, the spread of eucalyptus plantations, land fragmentation and climate change have contributed to increasing the country’s vulnerability. The document also highlights the role of droughts and heatwaves in the spread of fires and warns of the growing human impact of these disasters, reflected in the rise in mortality in urban-forest interface areas. Este relatório da Greenpeace analisa a evolução do risco de incêndios florestais em Portugal desde 1867. Identifica como o abandono rural, o envelhecimento da população, a expansão do eucalipto, a fragmentação da propriedade e as alterações climáticas contribuíram para aumentar a vulnerabilidade do território. O documento destaca ainda o papel das secas e das ondas de calor na propagação dos incêndios e alerta para o crescente impacto humano destas catástrofes, refletido no aumento da mortalidade em áreas de interface urbano-florestal.

É precisamente por isso que a Greenpeace Portugal lançou, em parceria com o Centro de Estudos de Incêndios Florestais da Universidade de Coimbra, um relatório inédito no nosso país. Pela primeira vez, uma análise reúne dados dos últimos 80 anos, permitindo olhar para o fogo em Portugal, não como uma sucessão de tragédias isoladas, mas como resultado de escolhas políticas, económicas e territoriais, acumuladas ao longo de décadas. Não o fizemos para acrescentar mais um documento à longa lista de diagnósticos esquecidos, mas para mostrar, com base científica, que o país já sabe demasiado para continuar a agir como se nada pudesse ser feito. O problema não está apenas no fogo que chega todos os verões; está no modo como deixámos o território preparado para arder.

Blazing forest fire, silhouetted tree in front of flames.

É aqui que Portugal tem de escolher. Ou continua a gastar milhões a correr atrás das chamas, verão após verão, ou começa finalmente a investir na paisagem antes dela arder. Na Greenpeace defendemos que essa escolha passa por travar a expansão do eucaliptal não gerido, concluir o cadastro da propriedade e apoiar uma verdadeira reconversão do território, com florestas mais diversas, resilientes e adaptadas ao clima que já temos. Passa também por garantir que quem mais contribui para a crise climática e para modelos intensivos de exploração do território, ajuda a financiar a adaptação do país e o restauro ecológico das nossas serras. E passa, sobretudo, por valorizar quem ainda cuida da terra: pastores, pequenos agricultores e comunidades locais que conservam a água, protegem a biodiversidade e reduzem naturalmente o combustível florestal. Não podemos permitir que as próximas gerações cresçam a achar que o destino das florestas portuguesas é transformarem-se em cinza. De Sintra a Fafe, passando pelas memórias de resiliência que trago do Norte da Europa, o diagnóstico é claro: proteger a floresta é proteger a nossa biodiversidade e a nossa própria sobrevivência. Mas para isso, o poder político tem de deixar de investir apenas em apagar os fogos do presente e começar, finalmente, a plantar o futuro, antes que enfrentemos incêndios que já não conseguimos apagar.

Toni Melajoki Roseiro, Diretor da Greenpeace Portugal

Partilha!


Partilha!