Antes que tudo seja cinza
Crescer com raízes divididas deu-me o privilégio de aprender a ler o mundo através das árvores. Parte da minha infância foi moldada pelas vastas, densas e silenciosas florestas da Finlândia, onde a natureza impõe uma escala de paciência e respeito absoluto. Mas o meu mapa afetivo completou-se em Portugal: nas serras esculpidas de Fafe, com o seu verde vigoroso e o pulsar granítico do Norte, e na envolvência quase mística da Serra de Sintra, onde o Atlântico abraça uma canópia densa e sussurrante. Foi no meio destes três ecossistemas tão distintos que aprendi a respirar e a compreender que uma floresta viva é o maior escudo que temos para proteger o futuro. Hoje, quando olho para o panorama florestal português, o sentimento é de profunda tristeza. Aqueles trilhos que na minha infância significavam biodiversidade, frescura e equilíbrio, transformaram-se, em grande parte do país, numa bomba-relógio de combustível pronta a arder. O fumo que rasga os céus de Portugal todos os verões não é apenas consequência da fatalidade meteorológica e climática, embora agrave o problema. Estamos na linha da frente da emergência climática. Na Península Ibérica, as secas prolongadas e as ondas de calor já não são exceções: são o novo normal alimentado por indústrias fósseis que continuam a lucrar enquanto o planeta sobreaquece. Contudo, o clima extremo apenas acende o rastilho que nós próprios plantámos. O verdadeiro drama português reside no desordenamento da paisagem.

O abandono crónico do mundo rural abriu espaço e à proliferação descontrolada de matagais e para a expansão massiva de monoculturas industriais, com o eucalipto à cabeça, desenhada para alimentar o lucro rápido das celuloses, em detrimento da segurança coletiva e do bem comum. Substituímos a complexidade rica de uma floresta biodiversa por autênticos “desertos verdes”, contínuos e altamente inflamáveis. A Sintra da minha infância, com o seu microclima húmido e vulnerável, ou as encostas de Fafe, enfrentam hoje uma pressão humana e ambiental sem precedentes porque perdemos a capacidade de gerir o território com uma visão de largo prazo. Perante isto, a resposta política tem sido lamentavelmente reativa. Existe uma obsessão pelo combate que secundariza a prevenção estrutural. Investem-se verdadeiras fortunas públicas em meios de extinção – aviões, helicópteros, viaturas pesadas -, o que, embora honre o esforço heróico dos operacionais no terreno, equivale a tentar apagar um vulcão com baldes de água. Politicamente, o combate é mediático e visível; o sucesso da prevenção é silencioso e invisível. Uma faixa de gestão de combustível bem executada ou o restauro de uma linha de água com espécies autóctones não geram títulos de jornal, mas salvam vidas e ecossistemas.

É precisamente por isso que a Greenpeace Portugal lançou, em parceria com o Centro de Estudos de Incêndios Florestais da Universidade de Coimbra, um relatório inédito no nosso país. Pela primeira vez, uma análise reúne dados dos últimos 80 anos, permitindo olhar para o fogo em Portugal, não como uma sucessão de tragédias isoladas, mas como resultado de escolhas políticas, económicas e territoriais, acumuladas ao longo de décadas. Não o fizemos para acrescentar mais um documento à longa lista de diagnósticos esquecidos, mas para mostrar, com base científica, que o país já sabe demasiado para continuar a agir como se nada pudesse ser feito. O problema não está apenas no fogo que chega todos os verões; está no modo como deixámos o território preparado para arder.

É aqui que Portugal tem de escolher. Ou continua a gastar milhões a correr atrás das chamas, verão após verão, ou começa finalmente a investir na paisagem antes dela arder. Na Greenpeace defendemos que essa escolha passa por travar a expansão do eucaliptal não gerido, concluir o cadastro da propriedade e apoiar uma verdadeira reconversão do território, com florestas mais diversas, resilientes e adaptadas ao clima que já temos. Passa também por garantir que quem mais contribui para a crise climática e para modelos intensivos de exploração do território, ajuda a financiar a adaptação do país e o restauro ecológico das nossas serras. E passa, sobretudo, por valorizar quem ainda cuida da terra: pastores, pequenos agricultores e comunidades locais que conservam a água, protegem a biodiversidade e reduzem naturalmente o combustível florestal. Não podemos permitir que as próximas gerações cresçam a achar que o destino das florestas portuguesas é transformarem-se em cinza. De Sintra a Fafe, passando pelas memórias de resiliência que trago do Norte da Europa, o diagnóstico é claro: proteger a floresta é proteger a nossa biodiversidade e a nossa própria sobrevivência. Mas para isso, o poder político tem de deixar de investir apenas em apagar os fogos do presente e começar, finalmente, a plantar o futuro, antes que enfrentemos incêndios que já não conseguimos apagar.
Toni Melajoki Roseiro, Diretor da Greenpeace Portugal