Entrada de blog por Ana Farias Fonseca - Junho 8, 2026


O Futuro do Atlântico também se escreve no Mar dos Sargaços

No dia 8 de junho, celebramos o Dia Mundial dos Oceanos, uma data que nos recorda uma verdade inegável: toda a vida no nosso planeta depende do azul que cobre a maior parte da Terra. No entanto, durante décadas, este gigante vital foi tratado como um recurso inesgotável e uma lixeira sem fundo. Hoje, felizmente, a nossa relação com o oceano é radicalmente diferente, mas talvez ainda não o suficiente. 

A recente entrada em vigor do Tratado Global dos Oceanos abriu um novo capítulo na proteção e conservação marinha, oferecendo-nos, finalmente, a ferramenta jurídica necessária para proteger as águas internacionais que não pertencem a nenhum país, mas que sustentam toda a biosfera. Para a Greenpeace, este tratado internacional é um mandato para a ação direta e local. 

Em abril deste ano, iniciámos uma parceria inovadora com o Museu da Baleia na Madeira para, em conjunto, desvendar os mistérios e as riquezas que habitam as profundezas do Atlântico. Para isso, inaugurámos os nossos novos hidrofones de estilo DIY (Do-It-Yourself), desenhados e pensados por especialistas da Science Unit da Greenpeace Internacional e que possuem um rigor científico absoluto. O impacto desta tecnologia inovadora reside no facto de que, muito em breve, disponibilizaremos estes designs em formato open-source. Queremos democratizar a investigação de espécies marinhas e quebrar as barreiras financeiras que historicamente limitaram a ciência oficial. Graças a estes hidrofones conseguimos, por exemplo, monitorizar e identificar famílias de baleias que utilizam as águas ao largo da Madeira como ponto de descanso e comunicação. Ao ouvirmos os seus cantos e cliques complexos, percebemos que o oceano está repleto de vida e laços familiares invisíveis que temos a obrigação de proteger.

Mas a ciência ensinou-nos algo ainda mais profundo: as baleias que escutamos na Madeira não vivem isoladas. Estas e outras famílias de cetáceos dependem diretamente de ecossistemas distantes, com especial destaque para o Mar dos Sargaços. Localizado também no Atlântico, perto do arquipélago dos Açores, o Mar dos Sargaços é um autêntico tesouro ecológico. Caracterizado pelas suas densas florestas flutuantes de algas Sargassum, este mar sem costas terrestres funciona como uma maternidade global, um refúgio seguro e uma zona crítica de alimentação e migração para centenas de espécies marinhas, incluindo tartarugas, baleias e tubarões.

Short finned pilot whales seen during the journey to the Sargasso Sea. The Arctic Sunrise is en route to the Sargasso Sea. The Sargasso is one of Greenpeace’s three priority sites for protection under the new Global Ocean Treaty. Protecting it is essential to stay on track with a landmark global target to protect at least 30% of the world’s oceans by 2030.

Infelizmente, o Mar dos Sargaços enfrenta hoje ameaças sem precedentes. A pesca industrial, a poluição por plásticos e o avanço silencioso e perigoso da mineração em águas profundas ameaçam este tecido vital. Se o Mar dos Sargaços colapsar, o impacto ecológico far-se-á sentir em todo o Atlântico, silenciando as baleias que aprendemos a ouvir e comprometendo o equilíbrio climático de que todos dependemos. É por isso que queremos que a criação do primeiro santuário marinho ao abrigo do novo Tratado Global dos Oceanos deve acontecer precisamente no Mar dos Sargaços.

É aqui que Portugal entra como um ator decisivo no tabuleiro internacional. Pela sua posição geográfica privilegiada e pela vasta plataforma continental, o nosso país tem uma responsabilidade acrescida. O Governo Português pode, e deve, exercer toda a sua influência diplomática e política para liderar a proposta de criação deste santuário marinho no Mar dos Sargaços. Não basta assinar tratados e fazer discursos inspiradores nas cimeiras internacionais, é preciso converter o ativismo diplomático em proteção real e tangível no alto mar já na primeira grande COP dos Oceanos, em janeiro de 2027, em Nova Iorque. Portugal tem aqui a oportunidade perfeita para se posicionar como o verdadeiro campeão da conservação marinha global. 

Neste Dia Mundial dos Oceanos, pedimos-te que não sejas apenas um espectador passivo. Visita a nossa página e assina a nossa petição para exigir a proteção imediata do Mar dos Sargaços. 

Vamos garantir que as vozes que ouvimos nas profundezas continuem a ecoar por muitas gerações. O oceano deu-nos a vida, agora, cabe-nos a nós salvá-lo.

Ana Farias Fonseca, Coordenadora de Campanhas e Mobilização da Greenpeace Portugal

Partilha!


Partilha!