O Futuro do Atlântico também se escreve no Mar dos Sargaços
No dia 8 de junho, celebramos o Dia Mundial dos Oceanos, uma data que nos recorda uma verdade inegável: toda a vida no nosso planeta depende do azul que cobre a maior parte da Terra. No entanto, durante décadas, este gigante vital foi tratado como um recurso inesgotável e uma lixeira sem fundo. Hoje, felizmente, a nossa relação com o oceano é radicalmente diferente, mas talvez ainda não o suficiente.
A recente entrada em vigor do Tratado Global dos Oceanos abriu um novo capítulo na proteção e conservação marinha, oferecendo-nos, finalmente, a ferramenta jurídica necessária para proteger as águas internacionais que não pertencem a nenhum país, mas que sustentam toda a biosfera. Para a Greenpeace, este tratado internacional é um mandato para a ação direta e local.
Em abril deste ano, iniciámos uma parceria inovadora com o Museu da Baleia na Madeira para, em conjunto, desvendar os mistérios e as riquezas que habitam as profundezas do Atlântico. Para isso, inaugurámos os nossos novos hidrofones de estilo DIY (Do-It-Yourself), desenhados e pensados por especialistas da Science Unit da Greenpeace Internacional e que possuem um rigor científico absoluto. O impacto desta tecnologia inovadora reside no facto de que, muito em breve, disponibilizaremos estes designs em formato open-source. Queremos democratizar a investigação de espécies marinhas e quebrar as barreiras financeiras que historicamente limitaram a ciência oficial. Graças a estes hidrofones conseguimos, por exemplo, monitorizar e identificar famílias de baleias que utilizam as águas ao largo da Madeira como ponto de descanso e comunicação. Ao ouvirmos os seus cantos e cliques complexos, percebemos que o oceano está repleto de vida e laços familiares invisíveis que temos a obrigação de proteger.
Mas a ciência ensinou-nos algo ainda mais profundo: as baleias que escutamos na Madeira não vivem isoladas. Estas e outras famílias de cetáceos dependem diretamente de ecossistemas distantes, com especial destaque para o Mar dos Sargaços. Localizado também no Atlântico, perto do arquipélago dos Açores, o Mar dos Sargaços é um autêntico tesouro ecológico. Caracterizado pelas suas densas florestas flutuantes de algas Sargassum, este mar sem costas terrestres funciona como uma maternidade global, um refúgio seguro e uma zona crítica de alimentação e migração para centenas de espécies marinhas, incluindo tartarugas, baleias e tubarões.

Infelizmente, o Mar dos Sargaços enfrenta hoje ameaças sem precedentes. A pesca industrial, a poluição por plásticos e o avanço silencioso e perigoso da mineração em águas profundas ameaçam este tecido vital. Se o Mar dos Sargaços colapsar, o impacto ecológico far-se-á sentir em todo o Atlântico, silenciando as baleias que aprendemos a ouvir e comprometendo o equilíbrio climático de que todos dependemos. É por isso que queremos que a criação do primeiro santuário marinho ao abrigo do novo Tratado Global dos Oceanos deve acontecer precisamente no Mar dos Sargaços.
É aqui que Portugal entra como um ator decisivo no tabuleiro internacional. Pela sua posição geográfica privilegiada e pela vasta plataforma continental, o nosso país tem uma responsabilidade acrescida. O Governo Português pode, e deve, exercer toda a sua influência diplomática e política para liderar a proposta de criação deste santuário marinho no Mar dos Sargaços. Não basta assinar tratados e fazer discursos inspiradores nas cimeiras internacionais, é preciso converter o ativismo diplomático em proteção real e tangível no alto mar já na primeira grande COP dos Oceanos, em janeiro de 2027, em Nova Iorque. Portugal tem aqui a oportunidade perfeita para se posicionar como o verdadeiro campeão da conservação marinha global.
Neste Dia Mundial dos Oceanos, pedimos-te que não sejas apenas um espectador passivo. Visita a nossa página e assina a nossa petição para exigir a proteção imediata do Mar dos Sargaços.
Vamos garantir que as vozes que ouvimos nas profundezas continuem a ecoar por muitas gerações. O oceano deu-nos a vida, agora, cabe-nos a nós salvá-lo.
Ana Farias Fonseca, Coordenadora de Campanhas e Mobilização da Greenpeace Portugal