Greenpeace lança relatório inédito sobre incêndios florestais em Portugal, com análise de mais de 8 décadas de dados, “Incêndios florestais em Portugal: mais de 80 anos mostram que o país tem de mudar”
Lisboa, 30 de junho de 2026 – A Greenpeace Portugal lançou hoje o relatório “Incêndios florestais em Portugal: mais de 80 anos mostram que o país tem de mudar”, uma análise científica inédita baseada em dados disponíveis desde 1943 e desenvolvida pelo CEIF – Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais da ADAI/Universidade de Coimbra, sob coordenação científica do Professor Domingos Xavier Viegas.
A principal conclusão é clara: Portugal conhece há décadas muitos dos fatores que condicionam os grandes incêndios, mas continua demasiado dependente das condições meteorológicas e da resposta à emergência, e tem sido insuficiente na preparação para agir antes de as chamas eclodirem.
O estudo mostra que os grandes incêndios não começam apenas no verão. Começam muito antes, na crescente pressão das alterações climáticas, na forma como o território é gerido, na acumulação de combustível vegetal, no abandono rural, na expansão da interface urbano-florestal e na insuficiente consideração do risco de incêndio.
Entre os principais resultados do relatório destacam-se:
- Mais de 80 anos de dados mostram que os grandes incêndios em Portugal são um problema estrutural, não uma fatalidade de verão.
- Apesar da redução do número de ignições, conseguida ao longo dos últimos vinte anos, o país continua vulnerável, quando se combinam a falta de gestão da paisagem com situações de calor extremo, seca ou vento forte.
- Os anos de 2003, 2005, 2017 e 2025 destacam-se pela extensão dos incêndios, pelas vítimas mortais, e revelam um padrão de risco que permanece por resolver.
- A maioria das ignições tem origem humana, reforçando a importância da investigação das causas dos incêndios, da sensibilização pública e da prevenção.
- É necessária uma mudança de prioridade: melhorar a prevenção estrutural durante todo o ano, para que possamos estar menos dependentes da resposta à emergência, que pode ser tardia.
“Devido à conjugação de vários fatores, os incêndios florestais em Portugal têm-se agravado, não apenas pelo número de grandes incêndios, mas também pela área ardida em cada ano”, afirma o Professor Domingos Xavier Viegas, Coordenador deste relatório. “ Entre eles contam-se a crescente florestação do País, a redução da agricultura, o despovoamento e, sobretudo, a alteração climática em que estamos. Infelizmente, os resultados dos modelos de previsão do clima e da evolução socioeconómica, que conhecemos, apontam para um agravamento do problema nos próximos anos.
Os graves incêndios que Portugal sofreu em 2003 e 2005, e sobretudo em 2017, mostraram que o problema dos incêndios é transversal a todo o País, podendo afetar múltiplos setores de atividade . Portugal foi-se organizando para dar uma resposta mais estruturada ao problema, envolvendo diversas entidades governamentais, empresas, autarquias e cidadãos, de forma integrada, para trabalhar nas múltiplas tarefas que a redução e a mitigação do risco implicam.
Com o contributo da ciência e da tecnologia, melhorou-se a capacidade de monitorizar e vigiar o território, dissuadindo em parte ações de uso indevido do fogo. Por outro lado, organizaram-se as forças de supressão dos incêndios, que acorrem , cada vez com melhor preparação e mais bem equipadas, para suprir a falta de pessoas nos territórios mais afetados. A melhoria da capacidade para suprimir os focos de incêndio na sua fase inicial tem sido um sucesso ao longo dos últimos 45 anos, mas não foi suficiente para evitar os graves incêndios que temos vindo a sofrer, particularmente quando as condições meteorológicas se conjugam para favorecer uma propagação intensa do fogo.
O diretor do CEIF, Centro de Estudos sobre Incêndios Florestais da ADAI/Universidade de Coimbra afirma que “Em 2025, estes fatores voltaram a cruzar-se de forma preocupante. A época de incêndios foi marcada por calor extremo, seca meteorológica em grande parte do território e por um aumento muito significativo da área ardida em agosto, confirmando que o risco continua elevado e que Portugal continua exposto a este perigo e vulnerável ao seu impacto.
Na investigação científica, procuramos conhecer melhor o risco, para encontrar formas de o reduzir e mitigar, para além de nos adaptarmos, para o enfrentar melhor no futuro.
Para Domingos Xavier Viegas, “Com o conhecimento que hoje temos sobre a evolução da situação, em particular do clima, não temos desculpa para fazer mais do mesmo. Não podemos continuar a manter vastas extensões de povoamentos, em monocultura, com pouca gestão, sem explorar o potencial económico, paisagístico e ambiental dos nossos espaços florestais e naturais.
Sabendo que nunca poderemos eliminar por completo os incêndios florestais do nosso panorama,temos de fazer o possível para que não produzam os danos que têm causado e, acima de tudo, que não afetem as pessoas, na sua saúde e na sua vida.”
Toni Melajoki Roseiro, sublinha que a Greenpeace pediu este relatório para que o debate sobre os incêndios deixe de depender apenas da memória curta de cada verão e passe a ter uma base científica independente, comparável e pública. “Para a organização, era essencial olhar para o problema com distância e rigor, não apenas a partir do último incêndio ou da última época crítica, mas a partir de uma leitura capaz de mostrar o que foi feito, o que resultou e onde o país continua a falhar.”
Para o diretor da Greenpeace Portugal, “este relatório deve servir como instrumento de escrutínio e de decisão. Quando existe conhecimento acumulado, a pergunta deixa de ser apenas o que aconteceu e passa a ser o que estamos dispostos a mudar. A Greenpeace Portugal quer que estes dados ajudem a orientar políticas públicas, prioridades orçamentais e responsabilidades, antes que a próxima época de incêndios volte a reduzir o debate à emergência do momento.”
Ana Farias Fonseca, alerta que “Portugal tem que resolver as raízes estruturais que causam incêndios no nosso país e que sabemos que serão cada vez mais extremos.” A Coordenadora de Campanhas e Mobilização da Greenpeace Portugal, sublinha que “É fundamental que exista uma prevenção estrutural, ou o combate chegará sempre tarde demais. Além disso, sabemos que as pressões climáticas são mais rápidas do que qualquer medida. O tempo urge. Queremos uma floresta viva e resiliente agora!”
Exigências da Greenpeace
A Greenpeace Portugal exige medidas concretas para reduzir o risco de grandes incêndios e tornar o território mais resiliente:
- Ação climática ambiciosa.
- Gestão estratégica da paisagem.
- Mobilização do setor privado.
- Prevenção social das ignições.
- Transparência orçamental.
- Revitalização económica do mundo rural.
- Pacto ibérico para a resiliência aos incêndios.
Materiais para a comunicação social
- Sumário executivo PT: AQUI
- Sumário Executivo ENG: AQUI
- Relatório científico completo PT: AQUI
- Relatório científico completo ENG: AQUI
- Petição: AQUI
- Fotografias (Media Library): AQUI
A Greenpeace Portugal está disponível para entrevistas e esclarecimentos adicionais.
Contactos para a comunicação social:
Catarina Canelas, Coordenadora de Comunicação da Greenpeace Portugal
ccanelas@greenpeace.org / 913 913 323
Ana Farias Fonseca, Coordenadora de Campanhas e Mobilização da Greenpeace Portugal
ana.farias@greenpeace.org / 913 913 343