Entrada de blog por Catarina Canelas - Abril 28, 2026


Faça-se luz perante os mitos do sistema elétrico

Parece que foi ontem quando, de repente, o zumbido constante das nossas cidades parou. O dia 28 de abril de 2025 ficou marcado no nosso calendário não só pela escuridão, mas pelo que aconteceu depois.

Lembras-te do silêncio?

Depois do susto inicial, muitos de nós descemos à rua. Partilhámos velas com vizinhos, organizámos jantares improvisados com o que estava a descongelar e, por uma noite, reconectámo-nos entre nós ao desligarmo-nos da rede e do telemóvel. Foi um lembrete de que, na adversidade, a nossa maior energia é a solidariedade.

No entanto, enquanto nos ajudávamos, começava também a ser “cozinhada” uma narrativa falsa. Quem tinha a responsabilidade de garantir a segurança do sistema elétrico não só não cumpriu plenamente a sua obrigação nesse dia, como aproveitou o sucedido para espalhar medo sobre as renováveis e promover ideias falsas para beneficiar os seus próprios interesses.

Hoje, com o relatório final da Rede Europeia de Operadores de Redes de Transporte de Eletricidade, ENTSO-E, em mãos, desmontamos os quatro grandes mitos que nos tentaram impor durante este ano. O apagão afetou a Península Ibérica e, por isso, o que aconteceu em Espanha também importa a Portugal. Mas as conclusões para o nosso país têm de ser claras: Portugal não tem centrais nucleares e a nossa segurança energética passa sobretudo por reduzir a dependência do gás fóssil, modernizar a rede, investir em armazenamento, reforçar a flexibilidade do sistema, acelerar o autoconsumo e as comunidades de energia.

Mito 1: “Havia renováveis a mais”

FALSO. O relatório dos gestores europeus da rede é taxativo: as renováveis não tiveram culpa. A falha não teve a ver com as tecnologias usadas para produzir eletricidade, mas com a forma como essas tecnologias estavam a operar, tanto renováveis como não renováveis.

De facto, enquanto a Península Ibérica sofria a queda do sistema, países como a Grécia ou a Alemanha operavam com quotas de energia eólica e fotovoltaica até superiores às nossas, sem qualquer apagão.

O apagão foi uma falha sistémica na gestão da tensão, não uma falha da tecnologia de produção. O que aconteceu foi uma reação em cadeia que os sistemas de proteção, geridos pelas companhias elétricas de sempre, não souberam travar.

Culpar as renováveis é o velho truque do oligopólio para proteger os seus interesses fósseis e nucleares. Como já vimos nos apagões do Texas ou da Austrália, quando o sistema falha costuma ser porque muitos sistemas de segurança falham ao mesmo tempo. Mas tentam vender-nos a ideia de que a culpa é das renováveis, que, por coincidência, são precisamente as tecnologias que mais desafiam o velho modelo energético centralizado.Para Portugal, a lição é evidente: o problema não é termos renováveis a mais. O problema é ainda não termos uma rede suficientemente preparada, mais armazenamento, mais gestão da procura e mais capacidade de resposta para um sistema elétrico cada vez mais renovável e eletrificado.

Mensagem da diretora-executiva da Greenpeace Espanha e Portugal, Eva Saldaña, aqui

Mito 2: “Faltaram centrais nucleares”

FALSO. Este mito precisa de ser lido com cuidado em Portugal. Ao contrário de Espanha, Portugal não tem centrais nucleares. Mas isso não significa que o debate espanhol nos seja indiferente: o apagão afetou toda a Península Ibérica e mostrou como os sistemas elétricos dos dois países estão profundamente ligados.

Em Espanha, a energia nuclear demonstrou ser um peso morto em momentos de crise. No dia do incidente, mais de metade do parque nuclear estava operacional e não só não ajudou, como dificultou a recuperação.

De facto, centrais nucleares hoje operacionais têm processos sancionatórios por não terem contribuído para estabilizar o sistema, apesar de receberem pagamentos por esse serviço, como, por exemplo, Almaraz, Ascó e Vandellòs II.

Além disso, a energia nuclear é “lenta” por natureza. Devido ao chamado “veneno de xénon” e ao stress térmico dos seus materiais, depois de desligadas por segurança, demoram dias a voltar a estar operacionais.

Enquanto a energia hídrica e as restantes renováveis ajudavam a reerguer o país em poucas horas, as nucleares demoraram uma semana a regressar à normalidade. Um país com centrais nucleares é um país menos resiliente e mais escravo de uma tecnologia inflexível.

Para Portugal, a conclusão não é importar uma tecnologia que não temos, que é cara, lenta e inflexível. A conclusão é acelerar as soluções que aumentam a nossa resiliência: menos dependência do gás fóssil, mais renováveis, mais armazenamento, redes mais modernas, melhor gestão da procura, mais autoconsumo e comunidades de energia.

Mito 3: “Sem gás, não podemos viver”

FALSO. Esta é a narrativa que mais lucros lhes está a dar. Dizem-nos que o gás nos salvou, mas a realidade é que, em Espanha, 16 centrais a gás, da Naturgy, Endesa, Iberdrola e Repsol, falharam no seu dever de controlar a tensão quando eram mais necessárias. E também tinham recebido pagamentos para fazer aquilo que não fizeram.

Por essa razão, além das nucleares, enfrentam agora vários processos sancionatórios muito graves.

E qual foi a recompensa pela sua ineficiência? Um modelo de “funcionamento reforçado” que mantém mais centrais a gás ligadas “por precaução”, aumentando as faturas e as emissões de CO₂. O oligopólio quer que paguemos “pagamentos por capacidade”, ou seja, dinheiro apenas pela existência das centrais, assegurando benefícios caídos do céu enquanto o planeta aquece.

Este é talvez o mito mais importante para Portugal. O gás fóssil continua a ser apresentado como garantia de segurança, mas mantém-nos expostos à volatilidade dos preços internacionais, à dependência externa, às emissões de CO₂ e a um modelo energético centralizado que atrasa a transição. A segurança do sistema não deve servir de desculpa para prolongar a dependência do gás, mas sim para acelerar o investimento em redes, armazenamento, eficiência, flexibilidade, autoconsumo e renováveis capazes de prestar serviços essenciais ao sistema.

Mito 4: “Só com renováveis não conseguimos funcionar”

FALSO. A Greenpeace acaba de demonstrar, no estudo Energia para viver melhor, que é possível abandonar os combustíveis fósseis e a energia nuclear, sem apagões, até 2040, graças a uma redução da procura energética total de 39% e cobrindo 100% da procura com renováveis.

Neste modelo, o sistema elétrico atual quase duplica devido à elevada eletrificação introduzida, mas demonstrámos que pode ser abastecido a 100% com energias renováveis, 24 horas por dia, 365 dias por ano, graças a uma combinação de diferentes fontes renováveis, como a eólica, hídrica, solar fotovoltaica e solar termoelétrica, apoiadas por armazenamento e gestão da procura.

Para Portugal, isto significa acelerar a eletrificação dos transportes, dos edifícios e da indústria, reduzir o desperdício energético, reforçar a rede elétrica, criar mais capacidade de armazenamento, promover o autoconsumo e as comunidades de energia, e garantir que as renováveis não são apenas fonte de produção, mas também parte ativa da segurança do sistema.

O que pede a Greenpeace

A suficiência e a eficiência para reduzir a procura energética total, juntamente com as renováveis, o armazenamento e a eletrificação para cobrir essa energia, são a chave tecnológica; mas controlar o oligopólio energético é a chave social.

Foram precisamente centrais a gás de empresas do oligopólio que não responderam quando eram necessárias para proporcionar segurança ao sistema que, finalmente, caiu, deixando-nos às escuras. O que aconteceu em Espanha não é um detalhe distante: teve impacto direto em Portugal e mostra como a segurança energética da Península Ibérica depende de sistemas mais robustos, mais flexíveis e menos dependentes de combustíveis fósseis.

Não permitamos que o medo apague a lição que aprendemos naquela noite estrelada: não precisamos de continuar presos aos gigantes do gás nem a falsas soluções nucleares. Precisamos de um sistema inteligente, limpo, descentralizado, nas mãos das pessoas e 100% renovável.

Portugal não precisa de importar falsas soluções nem de adiar a transição energética. Precisa de acelerar as decisões certas: menos gás fóssil, mais renováveis, mais armazenamento, redes mais modernas, mais eficiência, mais autoconsumo e mais comunidades de energia.

Por um futuro onde a luz seja um direito, não o negócio de alguns.

Sara Pizzinato, Responsável pela Campanha de Energias Renováveis da Greenpeace Espanha

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