Entrada de blog por Catarina Canelas - Agosto 3, 2026


Onda de calor: os animais e as plantas também estão a “cozer”

O verão em Espanha já não é o que era. As ondas de calor extremo deixaram de ser uma anomalia para se tornarem uma realidade dura e sufocante que se repete ano após ano. No entanto, enquanto os seres humanos procuram refúgio, os nossos ecossistemas travam uma batalha desesperada pela sobrevivência.

Quando falamos de calor extremo, há muitos aspetos a considerar. A saúde humana é fortemente afetada, mas a saúde da nossa flora e da nossa fauna também.

A fauna urbana enfrenta temperaturas letais

Não é preciso imaginar os glaciares do Polo Norte a derreterem: temos exemplos muito mais perto de nós.

Basta olhar para os telhados. Durante o verão, várias espécies da fauna urbana sofrem tanto como nós com o calor intenso. Os ninhos de andorinhões, andorinhas e pardais, instalados sob telhados de chapa ou cimento, atingem temperaturas letais. Devido ao stress térmico, muitas crias saltam do ninho antes de saber voar.

É provável que já tenhas encontrado uma cria de ave caída no passeio. Se quiseres ajudá-la, recolhe-a cuidadosamente, coloca-a numa caixa de cartão, deixa-a o mais tranquila possível e leva-a a um centro de recuperação de fauna.

Muito importante: nunca lhe dês água diretamente no bico. As aves têm, atrás da língua, uma abertura chamada glote, que comunica diretamente com o sistema respiratório (os sacos aéreos). Se a água entrar por essa via, podem afogar-se facilmente.

A base da cadeia alimentar colapsa

Com temperaturas muito elevadas, as abelhas deixam de recolher néctar porque passam o dia à procura de água para levar à colmeia e a bater as asas para ventilá-la, evitando que a cera derreta.

O calor extremo faz também com que as plantas sequem prematuramente e fiquem sem néctar nem frutos. Sem insetos e sem plantas, a cadeia alimentar começa a colapsar desde a sua base.

As cidades tornam-se refúgio para a fauna

O calor extremo seca fontes e linhas de água naturais, empurrando, por vezes, corços, raposas ou javalis para zonas urbanas em busca de água, aumentando o número de atropelamentos e de conflitos entre pessoas e animais.

Espécies que não conseguem fugir

Nalguns casos, como acontece com os anfíbios, o desaparecimento rápido das charcas temporárias devido à seca provoca a morte de rãs e sapos.

No fundo do mar, os organismos que vivem fixos ao substrato também não conseguem migrar para águas mais frias. Gorgónias, corais e esponjas sofrem necroses e mortalidade em massa quando a temperatura da água permanece elevada durante longos períodos.

A tropicalização pode soar bem, mas é um problema

À medida que a temperatura da água aumenta, os peixes deslocam-se para águas mais frias, mais a norte ou para maiores profundidades. Um dos exemplos mais evidentes é o do atum-rabilho, que está a trocar as águas das Baleares pelas do mar Cantábrico.

O aquecimento da água favorece também a chegada de espécies invasoras de origem tropical e promove a proliferação das medusas, cujas gónadas são estimuladas pela água quente, acelerando a sua reprodução e o crescimento das populações.

Além disso, em anos de pouca chuva, a água do mar perde a barreira de água doce proveniente dos rios, aumentando a salinidade. Assim, as medusas encontram menos obstáculos para chegar às praias.

Florestas submersas… e em risco

A posidónia, uma verdadeira joia do Mediterrâneo, armazena CO₂, trava a erosão das praias e serve de berçário e refúgio para mais de mil espécies. No entanto, está a ser fortemente afetada pelas elevadas temperaturas da água.

Se estas condições persistirem, estes prados marinhos poderão morrer, deixando as praias mais desprotegidas perante tempestades e temporais.

No norte, as florestas de algas vermelhas, adaptadas a águas frias, estão a recuar devido ao stress térmico, deixando dezenas de espécies de peixes e crustáceos sem alimento nem locais para desovar.

O calor extremo não é apenas aquilo que sentimos quando saímos à rua. Está a transformar a identidade das nossas florestas, prados e mares, colocando em risco inúmeras espécies e também setores económicos que dependem da boa saúde destes ecossistemas.

E agora, o que fazemos? Para além de nos protegermos do calor, é urgente agir contra as alterações climáticas, responsáveis pelo aumento da frequência e da intensidade dos fenómenos extremos.

Maria Jose Caballero de la Vega, Responsável de Campanhas da Greenpeace Espanha

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