Entrada de blog por Ana Farias Fonseca - Julho 30, 2026


O litoral português como primeira linha do nosso futuro

O relatório “Destruição a toda a costa – Retrato de um litoral português em risco” é um trabalho profundo que olha de frente para os cerca de 2500 quilómetros do nosso litoral, entre o continente e os arquipélagos dos Açores e da Madeira, faz um diagnóstico urgente, mas, acima de tudo, aponta caminhos de esperança.

Talvez não seja novidade para muitas pessoas, mas a costa portuguesa está sob uma pressão sem precedentes. Os impactos da crise climática já não são previsões para um futuro distante. Na verdade, são a realidade quotidiana.

  • Subida acelerada do nível do mar: Em Portugal, a água está a subir a um ritmo de 3,7 mm por ano, um valor superior à média global de 3,3 mm.
  • Erosão crónica: Mais de 25% da nossa costa continental está em recuo, com perdas que atingem os dois metros por ano em várias zonas.
  • Eventos extremos: A sucessão de tempestades no inverno de 2025 e no início de 2026 provocou recuos nos areais entre 10 e 20 metros em diversas praias.
  • Remédios temporários e dispendiosos: Investiram-se cerca de 350 milhões de euros, nos últimos 15 anos, em alimentações artificiais de areia. Soluções temporárias que, provavelmente, terão de ser repetidas num futuro próximo.

Além disso, a pressão urbanística em locais vulneráveis, como vemos em casos críticos na região de Grândola ou Sesimbra, e a degradação dos nossos sistemas dunares estão a retirar à costa as suas defesas naturais. Se não agirmos, estimamos que até 60% das nossas praias e até 10% do território costeiro habitável estejam em risco sério de desaparecer nas próximas décadas.

Tres Castelos beach (Left), Rocha beach (right). Buildings less than 100 metres from cliffs at risk. 12 structures have a demolition order. 30m setback since 2010.

The Greenpeace Portugal report “Portugal: A Coast at Risk?” reveals that the country faces an unprecedented challenge along its 1,860 km of coastline, driven by a sea-level rise of 3.7 mm per year and a doubling in the frequency of extreme storms since the year 2000. This vulnerability is severely exacerbated by human intervention, with 60% of the mainland coast already urbanised and 92% of sediments blocked in dams such as those on the Douro, which prevents the natural regeneration of beaches and accelerates their erosion. With 200,000 inhabitants in high-risk areas and the threat of losing 10% of the habitable coastal territory, the document advocates a “strategic retreat” and the prioritisation of nature-based solutions, such as the restoration of dunes and salt marshes, to ensure the coast’s survival.

Mas a natureza tem as soluções

A mensagem central do nosso relatório é clara: a nossa costa não é uma linha a defender, é antes um ecossistema dinâmico a respeitar. Não precisamos de inventar soluções artificiais quando a própria natureza nos oferece as melhores barreiras de proteção.

Restaurar dunas e marismas, travar a construção desmedida na primeira linha de mar e garantir o cumprimento efetivo da legislação ambiental são as ferramentas de adaptação climática mais urgentes e eficazes que temos.

Não podemos aceitar que as nossas praias de sempre sejam transformadas em memórias históricas, por terem sucumbido a interesses imobiliários de poucos e por terem sido ignorados os factos científicos. Se agirmos agora com coragem política, rigor no ordenamento do território e visão de futuro, podemos preservar este património incalculável para as gerações presentes e vindouras. 

Porto Covo, Setubal.
35 buildings on the front line are in a critical risk area.

The Greenpeace Portugal report “Portugal: A Coast at Risk?” reveals that the country faces an unprecedented challenge along its 1,860 km of coastline, driven by a sea-level rise of 3.7 mm per year and a doubling in the frequency of extreme storms since the year 2000. This vulnerability is severely exacerbated by human intervention, with 60% of the mainland coast already urbanised and 92% of sediments blocked in dams such as those on the Douro, which prevents the natural regeneration of beaches and accelerates their erosion. With 200,000 inhabitants in high-risk areas and the threat of losing 10% of the habitable coastal territory, the document advocates a “strategic retreat” and the prioritisation of nature-based solutions, such as the restoration of dunes and salt marshes, to ensure the coast’s survival.

Junta a tua voz à nossa

Para que estas propostas passem do papel para a ação, precisamos de uma mobilização cidadã forte. A proteção do litoral exige que o Governo e os municípios travem a expansão imobiliária em zonas de risco, apliquem as normas de proteção nos planos locais e garantam o acesso livre e público às nossas praias.

Cada assinatura nesta petição conta para fazer ouvir esta exigência e proteger o que é de todos.

Junta-te a nós para virar a maré e garantir um litoral vivo, seguro e resiliente!

Ana Farias Fonseca, Coordenadora de Campanhas e Mobilização da Greenpeace Portugal

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