Relatório da UNEP sobre a ultrapassagem dos 1,5 °C deve ser um apelo urgente à ação climática
O Programa das Nações Unidas para o Ambiente (UNEP) alertou que a temperatura global irá ultrapassar os 1,5 °C, provavelmente já nos próximos anos, atingindo níveis que irão agravar os impactos dos fenómenos meteorológicos extremos e intensificar os riscos das alterações climáticas. É por isso que a Greenpeace exige que os governos respondam com urgência, acelerando a transição para o abandono dos combustíveis fósseis e pondo fim à destruição das florestas, de forma a minimizar esta ameaça.
Apesar desta ultrapassagem temporária, mantém-se o compromisso global de limitar o aquecimento a 1,5 °C, tal como estabelecido no Acordo de Paris, reafirmado pelo Tribunal Internacional de Justiça e adotado pela Assembleia Geral das Nações Unidas.
O novo relatório da UNEP, Limiting Overshoot [Limitar a Ultrapassagem], apresenta uma trajetória designada por “ultrapassagem, pico e descida”, destinada a minimizar os impactos da ultrapassagem, permitir a adaptação aos mesmos e, posteriormente, regressar aos 1,5 °C. No entanto, mesmo no melhor cenário, em que os governos implementem plenamente e vão além dos atuais e futuros planos de ação climática, a UNEP afirma que o aumento da temperatura chegará ainda aos 1,8 °C antes de começar a descer.
A UNEP sublinha que “não existem bons resultados se permanecermos acima dos 1,5 °C” e que devemos concentrar-nos em tornar esta ultrapassagem tão pequena e tão curta quanto possível. Isso dependerá das decisões tomadas hoje: uma ação climática rápida em todos os setores é simultaneamente “necessária e viável” para manter o aquecimento tão próximo quanto possível dos 1,5 °C até 2100.

© Greenpeace
O que significa, na prática, ultrapassar os 1,5 °C?
Em 2015, na conferência das Nações Unidas sobre o clima COP21, em Paris, cerca de 200 governos comprometeram-se a desenvolver esforços para limitar o aquecimento global a 1,5 °C e mantê-lo bem abaixo dos 2 °C até 2100.
Embora, em 2024, a temperatura média global tenha ultrapassado este objetivo pela primeira vez, atingindo 1,6 °C acima dos níveis pré-industriais, isso não significou uma ultrapassagem de longo prazo do limite de 1,5 °C. Um único ano é apenas um indicador. O que importa é a tendência de longo prazo, medida através do aumento da temperatura ao longo de décadas e não de meses ou anos isolados.
No entanto, o termo overshoot – ultrapassagem – é cada vez mais utilizado para descrever trajetórias futuras da temperatura em que os 1,5 °C são temporariamente excedidos, seguindo-se posteriormente uma descida. As trajetórias de “ultrapassagem, pico e descida” fazem parte do novo conjunto de cenários globais de emissões que servirá de base aos próximos relatórios científicos sobre o clima do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC), o organismo científico das Nações Unidas para o clima.
O que diz o relatório da UNEP sobre evitar a ultrapassagem dos 1,5 °C?
Segundo a UNEP, “a ação global para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa tem sido demasiado lenta para impedir que as temperaturas ultrapassem os 1,5 °C “nos próximos anos”.
No que diz respeito ao orçamento global de carbono, a partir de 2026 só poderão ser emitidas cerca de mais 130 Gt de CO₂ para termos sequer 50% de probabilidade de limitar o aquecimento global a 1,5 °C. Para permanecer dentro deste orçamento, as emissões de CO₂ teriam de diminuir continuamente em relação aos níveis de 2025 até chegarem a zero em pouco mais de seis anos, o que revela o enorme fosso existente entre os atuais níveis de emissões e aquilo que é necessário alcançar.
Assim, após décadas de “ação insuficiente”, a UNEP identifica três desafios para limitar a ultrapassagem da temperatura:
- Reduzir as emissões e enfrentar os impactos;
- Limitar o pico do aquecimento e gerir os riscos climáticos;
- Manter a trajetória de descida das temperaturas e intensificar os esforços de adaptação.
A UNEP apela a uma resposta global que integre estas três fases interligadas. Primeiro, uma resposta imediata para abrandar a subida da temperatura, através de reduções profundas das emissões e de medidas urgentes destinadas a proteger as populações vulneráveis. Em segundo lugar, uma fase de resposta e contenção, centrada no reforço da resiliência climática. E, por último, uma terceira fase focada na construção de resiliência a longo prazo, com emissões líquidas negativas.
Para isso, acrescenta a UNEP, são necessárias cooperação multilateral, financiamento climático e uma implementação eficaz das políticas governamentais, de modo a acelerar a transição para o abandono dos combustíveis fósseis, expandir as energias renováveis, reduzir as emissões de metano e proteger os solos, as florestas e os oceanos.
Quais são as consequências de ultrapassar os 1,5 °C?
A UNEP alerta que, se continuarmos a adiar a ação, poderemos perder a possibilidade de regressar aos 1,5 °C e enfrentar “um mundo danificado sem precedentes”. Os impactos da ultrapassagem dos 1,5 °C seriam vastos e diversos, afetando os ecossistemas, os sistemas humanos e os sistemas económicos.
As sucessivas ondas de calor e os incêndios florestais que marcaram os chamados desastres naturais de 2026 estão precisamente entre os impactos para os quais temos vindo a ser alertados. Num mundo que ultrapasse os 1,5 °C, este tipo de fenómenos tornar-se-á mais provável e poderá tornar-se mais grave nos próximos anos.
Os impactos na criosfera estarão na linha da frente: perda de gelo marinho e de habitats no Ártico, perda de glaciares, degelo e degradação do permafrost. Estes efeitos terão consequências nos ecossistemas e nas comunidades a jusante que dependem sazonalmente da água proveniente do degelo.

© Christian Åslund / Greenpeace
A perda de biodiversidade nos ecossistemas marinhos e terrestres, provocada pelas alterações no uso do solo e pela acidificação dos oceanos, terá repercussões na saúde humana e na segurança alimentar e hídrica, ao mesmo tempo que as cidades e as infraestruturas ficarão sob uma “pressão crescente” devido a fenómenos extremos e a outros impactos.
A UNEP alertou ainda que alguns Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento (SIDS) e cidades costeiras de baixa altitude poderão ficar parcial ou totalmente submersos devido à subida do nível do mar. Esta situação poderá colocar em causa a própria continuidade desses Estados.
Tudo isto, entre muitos outros impactos, obrigará as sociedades a adaptarem-se constantemente, levantando questões de justiça, poder e legitimidade política.
Quão próximos estamos de ultrapassar o limite dos 1,5 °C?
A Organização Meteorológica Mundial (OMM) alertou que é muito provável que a temperatura global ultrapasse temporariamente os 1,5 °C durante pelo menos um ano entre 2026 e 2030. A organização considera também provável que a média dos cinco anos entre 2026 e 2030 ultrapasse os 1,5 °C.
A UNEP afirma agora que o aquecimento global provocado pela atividade humana está a aproximar-se dos 1,4 °C e que as temperaturas globais têm aumentado cerca de 0,25 °C por década, havendo estudos recentes que apontam para um ritmo ainda mais acelerado.
Segundo o IPCC, cada cinco anos de emissões elevadas acrescentam 0,1 °C ao pico de aquecimento. Mantendo-se estas tendências, o aquecimento global poderá atingir os 1,5 °C dentro de poucos anos, aproximadamente no final desta década.
Ultrapassar os 1,5 °C poderá desencadear pontos de não retorno irreversíveis?
Existe a possibilidade de alguns dos impactos de uma ultrapassagem dos 1,5 °C serem irreversíveis, mesmo que, posteriormente, as temperaturas globais voltem a descer. O risco de atingir pontos de não retorno aumenta quanto mais elevada for a temperatura global e quanto mais tempo permanecermos acima dos 1,5 °C. Por isso, é fundamental limitar esta subida tanto quanto possível.
Entre as alterações irreversíveis está a possível desestabilização — isto é, o degelo e colapso — das grandes camadas de gelo da Antártida Ocidental e da Gronelândia, a degradação da floresta amazónica e a perturbação da Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico (AMOC), o sistema de correntes oceânicas que ajuda a regular o clima ao transportar águas superficiais quentes para norte e águas profundas frias para sul.
São alterações que “remodelariam o mundo para sempre” e que poderão ocorrer abruptamente ou acumular-se ao longo do tempo, alerta a UNEP. Mesmo uma descida da temperatura global poderá coexistir com a continuação de alguns impactos, como a subida do nível do mar, o aquecimento dos oceanos, as perdas na criosfera e alterações regionais na precipitação, nas secas e nos fenómenos meteorológicos extremos.

© Samara Souza / Greenpeace
Colocar a equidade e a justiça no centro da resposta global às alterações climáticas
O relatório da UNEP reconhece claramente que a equidade e a justiça devem ocupar um lugar central nas estratégias destinadas a proteger as pessoas mais vulneráveis das alterações climáticas e a garantir uma transição justa para as comunidades e os trabalhadores, no âmbito dos esforços para assegurar um futuro habitável para todos.
Em última análise, os países desenvolvidos têm uma responsabilidade histórica e capacidade para agir “mais e mais depressa”. Devem garantir que uma transição justa para o abandono dos combustíveis fósseis permite que todas as comunidades beneficiem das energias renováveis e que ninguém seja prejudicado durante essa transição.
Como explica a Greenpeace International no seu documento de orientação política, uma transição justa é muito mais do que simplesmente substituir carvão, petróleo e gás por energias renováveis. É uma oportunidade para transformar os sistemas energético, de transportes, industrial e outros, tornando-os mais seguros e acessíveis, reduzindo as desigualdades, protegendo os ecossistemas e transferindo poder das elites e das empresas multimilionárias para as pessoas.
Que medidas de mitigação climática são necessárias e qual é a importância da adaptação?
Embora o relatório da UNEP sublinhe a necessidade urgente de ação climática para limitar a ultrapassagem dos 1,5 °C, reconhece também que alguns impactos são inevitáveis e que será necessária uma combinação de mitigação — ação climática — e adaptação.
Mitigação e adaptação estão “fundamentalmente interligadas”, afirma a UNEP. A mitigação determinará a dimensão e a duração dos futuros riscos climáticos, enquanto a adaptação continua a ser essencial porque os impactos já estão a acontecer e algum aquecimento adicional é inevitável.
A mitigação determina o percurso e o destino; a adaptação determina quem consegue lá chegar. Os compromissos em matéria de financiamento, solidariedade duradoura e governação inclusiva devem estar estabelecidos muito antes de atingirmos o pico de aquecimento, em vez de serem improvisados em plena situação de crise.

© Astrid Lagougine / Greenpeace
Se ultrapassarmos os 1,5 °C, como podemos regressar a esse limite?
Atingir emissões líquidas zero – situação em que as emissões de CO₂ são compensadas pela remoção de CO₂ – é necessário para travar o aquecimento, juntamente com reduções profundas das emissões de metano e de outros poluentes climáticos de curta duração. É essencial agir cedo para limitar o pico de temperatura porque, quanto mais a temperatura subir, maior será a quantidade de CO₂ que terá de ser removida da atmosfera.
Reduções profundas das emissões de metano são igualmente vitais, uma vez que este gás contribui com cerca de 0,5 °C para o atual aquecimento global. Embora a UNEP reconheça os desafios associados à redução das emissões de metano, é evidente que não conseguiremos arrefecer o planeta enquanto a produção pecuária industrial continuar a expandir-se sem controlo, impulsionando emissões de metano com um elevado potencial de aquecimento, a desflorestação, a poluição da água potável e a extinção de espécies.
Segundo a análise da UNEP, será também necessário algum nível de remoção de dióxido de carbono (CDR). No entanto, a maioria das estratégias de CDR continua envolta em grande incerteza quanto à sua eficácia, capacidade de expansão, permanência, durabilidade, potenciais impactos adversos e aceitação social.
O que é preciso fazer agora para evitar ou limitar a ultrapassagem dos 1,5 °C?
A caminho da Assembleia Geral das Nações Unidas, em setembro, e da conferência das Nações Unidas sobre o clima COP31, em novembro, os governos têm de reconhecer as conclusões deste relatório e demonstrar a intenção de acelerar uma transição justa. O limite de 1,5 °C é uma obrigação jurídica, política e moral. E o que importa agora é aquilo que fazemos hoje e amanhã, porque cada fração de grau conta.
As ações essenciais a tomar agora são:
- Reduzir de forma imediata e profunda as emissões, no âmbito de uma transição justa para o abandono dos combustíveis fósseis;
- Proteger os oceanos e as florestas;
- Proteger as pessoas mais vulneráveis e aquelas que têm menor responsabilidade pelas alterações climáticas.
Um clima estável no futuro exige mudança hoje.
Jasper Inventor é Diretor-Adjunto de Programas da Greenpeace International.
Dr. Jerry Jose é Cientista Sénior da Unidade Científica da Greenpeace International (Universidade de Exeter, Reino Unido).