Entrada de blog por Catarina Canelas - Setembro 3, 2026


Relatório da UNEP sobre a ultrapassagem dos 1,5 °C deve ser um apelo urgente à ação climática

O Programa das Nações Unidas para o Ambiente (UNEP) alertou que a temperatura global irá ultrapassar os 1,5 °C, provavelmente já nos próximos anos, atingindo níveis que irão agravar os impactos dos fenómenos meteorológicos extremos e intensificar os riscos das alterações climáticas. É por isso que a Greenpeace exige que os governos respondam com urgência, acelerando a transição para o abandono dos combustíveis fósseis e pondo fim à destruição das florestas, de forma a minimizar esta ameaça.

Apesar desta ultrapassagem temporária, mantém-se o compromisso global de limitar o aquecimento a 1,5 °C, tal como estabelecido no Acordo de Paris, reafirmado pelo Tribunal Internacional de Justiça e adotado pela Assembleia Geral das Nações Unidas.

O novo relatório da UNEP, Limiting Overshoot [Limitar a Ultrapassagem], apresenta uma trajetória designada por “ultrapassagem, pico e descida”, destinada a minimizar os impactos da ultrapassagem, permitir a adaptação aos mesmos e, posteriormente, regressar aos 1,5 °C. No entanto, mesmo no melhor cenário, em que os governos implementem plenamente e vão além dos atuais e futuros planos de ação climática, a UNEP afirma que o aumento da temperatura chegará ainda aos 1,8 °C antes de começar a descer.

A UNEP sublinha que “não existem bons resultados se permanecermos acima dos 1,5 °C” e que devemos concentrar-nos em tornar esta ultrapassagem tão pequena e tão curta quanto possível. Isso dependerá das decisões tomadas hoje: uma ação climática rápida em todos os setores é simultaneamente “necessária e viável” para manter o aquecimento tão próximo quanto possível dos 1,5 °C até 2100.

Com uma linha vermelha simbólica entre a aldeia de Lützerath e a mina de lenhite a céu aberto de Garzweiler, na Renânia do Norte-Vestefália, ativistas da Greenpeace protestam contra a destruição da aldeia pela empresa de carvão RWE.
© Greenpeace

O que significa, na prática, ultrapassar os 1,5 °C?

Em 2015, na conferência das Nações Unidas sobre o clima COP21, em Paris, cerca de 200 governos comprometeram-se a desenvolver esforços para limitar o aquecimento global a 1,5 °C e mantê-lo bem abaixo dos 2 °C até 2100.

Embora, em 2024, a temperatura média global tenha ultrapassado este objetivo pela primeira vez, atingindo 1,6 °C acima dos níveis pré-industriais, isso não significou uma ultrapassagem de longo prazo do limite de 1,5 °C. Um único ano é apenas um indicador. O que importa é a tendência de longo prazo, medida através do aumento da temperatura ao longo de décadas e não de meses ou anos isolados.

No entanto, o termo overshoot – ultrapassagem – é cada vez mais utilizado para descrever trajetórias futuras da temperatura em que os 1,5 °C são temporariamente excedidos, seguindo-se posteriormente uma descida. As trajetórias de “ultrapassagem, pico e descida” fazem parte do novo conjunto de cenários globais de emissões que servirá de base aos próximos relatórios científicos sobre o clima do Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC), o organismo científico das Nações Unidas para o clima.

O que diz o relatório da UNEP sobre evitar a ultrapassagem dos 1,5 °C?

Segundo a UNEP, “a ação global para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa tem sido demasiado lenta para impedir que as temperaturas ultrapassem os 1,5 °C “nos próximos anos”.

No que diz respeito ao orçamento global de carbono, a partir de 2026 só poderão ser emitidas cerca de mais 130 Gt de CO₂ para termos sequer 50% de probabilidade de limitar o aquecimento global a 1,5 °C. Para permanecer dentro deste orçamento, as emissões de CO₂ teriam de diminuir continuamente em relação aos níveis de 2025 até chegarem a zero em pouco mais de seis anos, o que revela o enorme fosso existente entre os atuais níveis de emissões e aquilo que é necessário alcançar.

Assim, após décadas de “ação insuficiente”, a UNEP identifica três desafios para limitar a ultrapassagem da temperatura:

  • Reduzir as emissões e enfrentar os impactos;
  • Limitar o pico do aquecimento e gerir os riscos climáticos;
  • Manter a trajetória de descida das temperaturas e intensificar os esforços de adaptação.

A UNEP apela a uma resposta global que integre estas três fases interligadas. Primeiro, uma resposta imediata para abrandar a subida da temperatura, através de reduções profundas das emissões e de medidas urgentes destinadas a proteger as populações vulneráveis. Em segundo lugar, uma fase de resposta e contenção, centrada no reforço da resiliência climática. E, por último, uma terceira fase focada na construção de resiliência a longo prazo, com emissões líquidas negativas.

Para isso, acrescenta a UNEP, são necessárias cooperação multilateral, financiamento climático e uma implementação eficaz das políticas governamentais, de modo a acelerar a transição para o abandono dos combustíveis fósseis, expandir as energias renováveis, reduzir as emissões de metano e proteger os solos, as florestas e os oceanos.

Quais são as consequências de ultrapassar os 1,5 °C?

A UNEP alerta que, se continuarmos a adiar a ação, poderemos perder a possibilidade de regressar aos 1,5 °C e enfrentar “um mundo danificado sem precedentes”. Os impactos da ultrapassagem dos 1,5 °C seriam vastos e diversos, afetando os ecossistemas, os sistemas humanos e os sistemas económicos.

As sucessivas ondas de calor e os incêndios florestais que marcaram os chamados desastres naturais de 2026 estão precisamente entre os impactos para os quais temos vindo a ser alertados. Num mundo que ultrapasse os 1,5 °C, este tipo de fenómenos tornar-se-á mais provável e poderá tornar-se mais grave nos próximos anos.

Os impactos na criosfera estarão na linha da frente: perda de gelo marinho e de habitats no Ártico, perda de glaciares, degelo e degradação do permafrost. Estes efeitos terão consequências nos ecossistemas e nas comunidades a jusante que dependem sazonalmente da água proveniente do degelo.

O glaciar Blomstrandbreen, em Ny-Ålesund, Svalbard.
© Christian Åslund / Greenpeace

A perda de biodiversidade nos ecossistemas marinhos e terrestres, provocada pelas alterações no uso do solo e pela acidificação dos oceanos, terá repercussões na saúde humana e na segurança alimentar e hídrica, ao mesmo tempo que as cidades e as infraestruturas ficarão sob uma “pressão crescente” devido a fenómenos extremos e a outros impactos.

A UNEP alertou ainda que alguns Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento (SIDS) e cidades costeiras de baixa altitude poderão ficar parcial ou totalmente submersos devido à subida do nível do mar. Esta situação poderá colocar em causa a própria continuidade desses Estados.

Tudo isto, entre muitos outros impactos, obrigará as sociedades a adaptarem-se constantemente, levantando questões de justiça, poder e legitimidade política.

Quão próximos estamos de ultrapassar o limite dos 1,5 °C?

A Organização Meteorológica Mundial (OMM) alertou que é muito provável que a temperatura global ultrapasse temporariamente os 1,5 °C durante pelo menos um ano entre 2026 e 2030. A organização considera também provável que a média dos cinco anos entre 2026 e 2030 ultrapasse os 1,5 °C.

A UNEP afirma agora que o aquecimento global provocado pela atividade humana está a aproximar-se dos 1,4 °C e que as temperaturas globais têm aumentado cerca de 0,25 °C por década, havendo estudos recentes que apontam para um ritmo ainda mais acelerado.

Segundo o IPCC, cada cinco anos de emissões elevadas acrescentam 0,1 °C ao pico de aquecimento. Mantendo-se estas tendências, o aquecimento global poderá atingir os 1,5 °C dentro de poucos anos, aproximadamente no final desta década.

Ultrapassar os 1,5 °C poderá desencadear pontos de não retorno irreversíveis?

Existe a possibilidade de alguns dos impactos de uma ultrapassagem dos 1,5 °C serem irreversíveis, mesmo que, posteriormente, as temperaturas globais voltem a descer. O risco de atingir pontos de não retorno aumenta quanto mais elevada for a temperatura global e quanto mais tempo permanecermos acima dos 1,5 °C. Por isso, é fundamental limitar esta subida tanto quanto possível.

Entre as alterações irreversíveis está a possível desestabilização — isto é, o degelo e colapso — das grandes camadas de gelo da Antártida Ocidental e da Gronelândia, a degradação da floresta amazónica e a perturbação da Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico (AMOC), o sistema de correntes oceânicas que ajuda a regular o clima ao transportar águas superficiais quentes para norte e águas profundas frias para sul.

São alterações que “remodelariam o mundo para sempre” e que poderão ocorrer abruptamente ou acumular-se ao longo do tempo, alerta a UNEP. Mesmo uma descida da temperatura global poderá coexistir com a continuação de alguns impactos, como a subida do nível do mar, o aquecimento dos oceanos, as perdas na criosfera e alterações regionais na precipitação, nas secas e nos fenómenos meteorológicos extremos.

Durante uma atividade de campo com líderes Kayapó, a Greenpeace Brasil lançou uma campanha global em defesa da Amazónia, juntando forças com outras organizações em todo o mundo.
© Samara Souza / Greenpeace

Colocar a equidade e a justiça no centro da resposta global às alterações climáticas

O relatório da UNEP reconhece claramente que a equidade e a justiça devem ocupar um lugar central nas estratégias destinadas a proteger as pessoas mais vulneráveis das alterações climáticas e a garantir uma transição justa para as comunidades e os trabalhadores, no âmbito dos esforços para assegurar um futuro habitável para todos.

Em última análise, os países desenvolvidos têm uma responsabilidade histórica e capacidade para agir “mais e mais depressa”. Devem garantir que uma transição justa para o abandono dos combustíveis fósseis permite que todas as comunidades beneficiem das energias renováveis e que ninguém seja prejudicado durante essa transição.

Como explica a Greenpeace International no seu documento de orientação política, uma transição justa é muito mais do que simplesmente substituir carvão, petróleo e gás por energias renováveis. É uma oportunidade para transformar os sistemas energético, de transportes, industrial e outros, tornando-os mais seguros e acessíveis, reduzindo as desigualdades, protegendo os ecossistemas e transferindo poder das elites e das empresas multimilionárias para as pessoas.

Que medidas de mitigação climática são necessárias e qual é a importância da adaptação?

Embora o relatório da UNEP sublinhe a necessidade urgente de ação climática para limitar a ultrapassagem dos 1,5 °C, reconhece também que alguns impactos são inevitáveis e que será necessária uma combinação de mitigação — ação climática — e adaptação.

Mitigação e adaptação estão “fundamentalmente interligadas”, afirma a UNEP. A mitigação determinará a dimensão e a duração dos futuros riscos climáticos, enquanto a adaptação continua a ser essencial porque os impactos já estão a acontecer e algum aquecimento adicional é inevitável.

A mitigação determina o percurso e o destino; a adaptação determina quem consegue lá chegar. Os compromissos em matéria de financiamento, solidariedade duradoura e governação inclusiva devem estar estabelecidos muito antes de atingirmos o pico de aquecimento, em vez de serem improvisados em plena situação de crise.

Uma extensa linha de fogo atravessa uma floresta de pinheiros sob uma coluna de fumo escuro durante um incêndio florestal em Marcheprime, Gironda, França.
© Astrid Lagougine / Greenpeace

Se ultrapassarmos os 1,5 °C, como podemos regressar a esse limite?

Atingir emissões líquidas zero – situação em que as emissões de CO₂ são compensadas pela remoção de CO₂ – é necessário para travar o aquecimento, juntamente com reduções profundas das emissões de metano e de outros poluentes climáticos de curta duração. É essencial agir cedo para limitar o pico de temperatura porque, quanto mais a temperatura subir, maior será a quantidade de CO₂ que terá de ser removida da atmosfera.

Reduções profundas das emissões de metano são igualmente vitais, uma vez que este gás contribui com cerca de 0,5 °C para o atual aquecimento global. Embora a UNEP reconheça os desafios associados à redução das emissões de metano, é evidente que não conseguiremos arrefecer o planeta enquanto a produção pecuária industrial continuar a expandir-se sem controlo, impulsionando emissões de metano com um elevado potencial de aquecimento, a desflorestação, a poluição da água potável e a extinção de espécies.

Segundo a análise da UNEP, será também necessário algum nível de remoção de dióxido de carbono (CDR). No entanto, a maioria das estratégias de CDR continua envolta em grande incerteza quanto à sua eficácia, capacidade de expansão, permanência, durabilidade, potenciais impactos adversos e aceitação social.

O que é preciso fazer agora para evitar ou limitar a ultrapassagem dos 1,5 °C?

A caminho da Assembleia Geral das Nações Unidas, em setembro, e da conferência das Nações Unidas sobre o clima COP31, em novembro, os governos têm de reconhecer as conclusões deste relatório e demonstrar a intenção de acelerar uma transição justa. O limite de 1,5 °C é uma obrigação jurídica, política e moral. E o que importa agora é aquilo que fazemos hoje e amanhã, porque cada fração de grau conta.

As ações essenciais a tomar agora são:

  • Reduzir de forma imediata e profunda as emissões, no âmbito de uma transição justa para o abandono dos combustíveis fósseis;
  • Proteger os oceanos e as florestas;
  • Proteger as pessoas mais vulneráveis e aquelas que têm menor responsabilidade pelas alterações climáticas.

Um clima estável no futuro exige mudança hoje.

Jasper Inventor é Diretor-Adjunto de Programas da Greenpeace International.
Dr. Jerry Jose é Cientista Sénior da Unidade Científica da Greenpeace International (Universidade de Exeter, Reino Unido).

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